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	<title>Carolina Freire Psicologia</title>
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	<description>Psic&#243;loga. Estudiosa e entusiasta pelo desenvolvimento humano, cuidando das pessoas como indivíduos e como membros de uma coletividade.</description>
	<lastBuildDate>Wed, 07 Jan 2026 20:19:58 +0000</lastBuildDate>
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	<title>Carolina Freire Psicologia</title>
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	<item>
		<title>Presença afetiva: o encontro que cura a relação entre pais e filhos</title>
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		<dc:creator><![CDATA[carolfreire]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 18 Dec 2025 17:10:05 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Pais e filhos]]></category>
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					<description><![CDATA[O presente invisível que constrói vínculo, segurança emocional e pertencimento “O essencial é invisível aos olhos.” — Saint-Exupéry — Há muitos anos escuto famílias. E, com o passar do tempo, percebo que os pedidos que chegam não são por fórmulas, métodos ou respostas prontas. O que chega é outra coisa. Chega como quem pede colo, [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h2>O presente invisível que constrói vínculo, segurança emocional e pertencimento</h2>
<h3 style="text-align: right;">“O essencial é invisível aos olhos.”<br />
— Saint-Exupéry —</h3>
<p>Há muitos anos escuto famílias.</p>
<p>E, com o passar do tempo, percebo que os pedidos que chegam não são por fórmulas, métodos ou respostas prontas. O que chega é outra coisa. Chega como quem pede colo, mesmo sem saber nomear: um desejo de conexão, de escuta, de integração.</p>
<p>Vivemos em uma época que promete atalhos. A parentalidade virou produto, e as redes sociais oferecem imagens bem editadas de como se deve cuidar, educar, amar. Mas quase nunca essas imagens dão conta da vida como ela é — atravessada por cansaço, dúvidas, histórias anteriores, limites reais e desafios singulares de cada família.</p>
<p>Nossa sociedade é barulhenta, acelerada e, muitas vezes, impessoal. Os dias passam depressa, as telas disputam atenção, e o tempo do encontro vai sendo empurrado para depois. Criar espaços de respeito às singularidades e de conexão íntima tornou-se um dos grandes desafios do nosso tempo.</p>
<p>Ainda assim, algo insiste.</p>
<p>Entre telas, ruídos e notificações, ainda é o encontro que continua a curar. Não o encontro idealizado. Nem aquele que rende boas fotos ou frases prontas. Mas o encontro possível — aquele que acontece quando alguém se dispõe a estar. Inteiro. Presente. Sem plateia.</p>
<p>A relação entre pais e filhos é uma trama viva. Ela se constrói no cotidiano miúdo, feito de fios visíveis e invisíveis: o tom de voz ao acordar, o jeito de escutar um choro, a pausa antes de responder, a maneira de permanecer quando algo sai do esperado. São gestos pequenos, repetidos, quase imperceptíveis — e profundamente estruturantes.</p>
<p>É nessa costura diária que a criança vai formando algo essencial para o seu desenvolvimento emocional: a sensação de que existe um lugar seguro onde pode existir como é. Um lugar onde não precisa performar, acertar sempre ou corresponder a expectativas externas para ser acolhida.</p>
<p>A orientação parental, quando acontece neste registro, não vem para corrigir, nem para ensinar um jeito certo de ser pai ou mãe. Ela se oferece como espaço de pausa, de reflexão e de ampliação do olhar. Um lugar onde é possível compreender o que está sendo pedido em cada comportamento, em cada crise, em cada silêncio — e responder com menos pressa e mais presença.</p>
<p>Talvez, no fim das contas, cuidar seja isso: aprender a enxergar o invisível. E confiar que, mesmo em tempos tão acelerados, ainda é possível sustentar encontros que fazem morada.<br />
</br></p>
<h2>Presença afetiva: quando estar vira abrigo emocional</h2>
<h3 style="text-align: right;">“Quem cuida sabe: estar perto não é ocupar espaço, é oferecer chão.”</h3>
<p>Estar presente é ocupar o mesmo espaço físico.</p>
<p>Ser presente é oferecer presença afetiva.</p>
<p>Essa diferença, tão sutil quanto decisiva, aparece todos os dias. Vejo famílias com seus filhos em parques, praças, espaços abertos onde a vida pulsa. Os corpos estão ali, lado a lado, mas os olhares se perdem nas telas. O encontro acontece no cenário, mas não na experiência. Pouco contato, pouca partilha, pouca entrega ao que está vivo naquele instante.</p>
<p>Presença afetiva pede algo que não se pode multitarefar. Ela exige corpo, atenção, disponibilidade. Exige que o adulto esteja, de fato, ali — não apenas cumprindo uma função, mas habitando a relação.</p>
<p>Violet Oaklander chama isso de encontro genuíno. É o momento em que o adulto se apresenta por inteiro na relação, não apenas como quem orienta, educa ou corrige, mas como alguém que se deixa tocar pelo encontro. Nesse espaço, a criança deixa de ser um comportamento a ser ajustado e passa a ser reconhecida como sujeito, com mundo interno, sentimentos e linguagem própria.</p>
<p>A neurociência do desenvolvimento, com Daniel J. Siegel e Tina Payne Bryson, confirma aquilo que a clínica já escuta há muito tempo: o cérebro da criança se constrói na relação. Antes de aprender regras, a criança precisa sentir segurança. Antes de conseguir pensar, precisa se sentir acolhida. É por isso que eles nos oferecem uma chave simples e profunda: conectar vem antes de corrigir.</p>
<p>Quando o adulto desacelera, escuta sem julgamento, sustenta o olhar e valida o sentir da criança, algo se reorganiza por dentro. O cérebro emocional encontra repouso, o corpo ganha chão, e só então o pensamento pode emergir. Não por imposição, mas por possibilidade.</p>
<p>É nesse tipo de presença — contínua, imperfeita, real — que a criança aprende, silenciosamente, algo fundamental para sua existência no mundo: que é vista, que o que sente faz sentido e que há um lugar onde pode existir como é.</p>
<p>Talvez seja disso que este tempo tão barulhento esteja nos pedindo: menos fórmulas, menos distrações, mais encontros verdadeiros. Porque, no fim, não é a presença física que sustenta o vínculo, mas a presença afetiva que faz morada.<br />
</br></p>
<h2>A pausa que cuida: tempo, ritmo e regulação emocional</h2>
<h3 style="text-align: right;">“Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas…”<br />
— Fernando Pessoa —</h3>
<p>Esse tipo de encontro não acontece na pressa.</p>
<p>Ele pede pausa.</p>
<p>Na Gestalt-terapia com crianças, Violet Oaklander nos lembra que a autorregulação não nasce de orientações verbais nem de correções imediatas, mas do encontro. É no contato vivo, sustentado e respeitoso que a criança vai, pouco a pouco, aprendendo a sentir sem se perder. A pausa, aqui, não é ausência de ação — é um modo de estar que regula.</p>
<p>Emmi Pikler nos ensinou que o desenvolvimento saudável depende do respeito ao ritmo da criança. Pausar não é abandonar. É sustentar presença sem invadir. É observar antes de intervir. É permitir que a experiência se complete, para que algo possa se organizar por dentro. Quando o adulto confia no tempo da criança, ele oferece mais do que cuidado: oferece chão.</p>
<p>Oaklander articula esse respeito ao ritmo com o conceito de autorregulação apoiada. A criança ainda não regula sozinha; ela regula com o outro. O adulto que permanece disponível, que nomeia o que percebe sem interpretar ou julgar, ajuda a criança a reconhecer seus próprios estados internos. A regulação emocional acontece no contato, não no controle.</p>
<p>Daniel J. Siegel e Tina Payne Bryson mostram que essa pausa também é um gesto neurológico. Ela mantém a criança dentro da sua janela de tolerância — esse espaço interno onde é possível sentir sem se desorganizar completamente. Quando o adulto desacelera, ele empresta regulação. Seu corpo tranquilo conversa com o corpo da criança. Seu tom de voz ensina segurança. Seu silêncio diz: estou aqui com você.</p>
<p>Na linguagem da Gestalt, é o campo que se reorganiza. O adulto regula o ambiente, a relação, o ritmo. E, nesse campo mais seguro, a criança pode experimentar emoções intensas sem se fragmentar. Pode chorar, se frustrar, se zangar — e, ainda assim, permanecer inteira.</p>
<p>A pausa que cuida não interrompe o processo da criança.</p>
<p>Ela o sustenta.<br />
</br></p>
<h2>Férias em família: quando o tempo desacelera e o vínculo respira</h2>
<h3 style="text-align: right;">“O tempo é um tecido invisível.”<br />
— Manoel de Barros —</h3>
<p>As férias suspendem o ritmo habitual e oferecem algo cada vez mais raro: tempo vivido. Um tempo que não se fragmenta em tarefas, que não corre atrás do relógio, que não exige produtividade. Um tempo que se estica, afrouxa, respira — e, ao respirar, reorganiza o campo da relação.</p>
<p>Nesse tempo outro, os dias acordam mais lentos. Dorme-se um pouco mais. Brinca-se sem objetivo. Conversa-se sem pressa. O horário escapa — e nada desmorona. O corpo entende que pode descansar. O vínculo percebe que há espaço. A vida deixa de ser apenas atravessada e passa a ser habitada.</p>
<p>Quando o tempo desacelera, algo se organiza por dentro. A criança mostra mais de si, sem a urgência de corresponder. O brincar ganha continuidade, o gesto encontra começo, meio e fim, a imaginação se aprofunda. O adulto também desce do ritmo acelerado e se autoriza a estar. É nesse intervalo, quase silencioso, que o encontro acontece — não como evento, mas como presença compartilhada.</p>
<p>Jean Piaget nos lembra que é no brincar espontâneo que a criança constrói pensamento, experimenta o mundo e integra o que sente ao que compreende. Maria Montessori acrescenta que esse processo pede tempo contínuo e liberdade: quando não há interrupções constantes, a criança encontra concentração, ritmo interno e autonomia. O brincar livre não é descanso do desenvolvimento — é o desenvolvimento acontecendo.</p>
<p>Emmi Pikler amplia esse olhar ao mostrar que o adulto, ao desacelerar e confiar no tempo da criança, oferece segurança. Não dirige cada gesto, não apressa processos. Observa, sustenta, acompanha. Essa presença respeitosa cria as condições para que o corpo da criança se organize, se fortaleça e se sinta capaz.</p>
<p>Na Gestalt-terapia com crianças, Violet Oaklander nos ajuda a compreender que o brincar é linguagem. É pelo brincar que a criança expressa o que ainda não cabe em palavras, regula emoções e integra corpo, afeto e pensamento. O encontro genuíno acontece quando o adulto se faz disponível, não para conduzir a brincadeira, mas para estar com ela.</p>
<p>As férias em família podem se tornar, assim, um território fértil de encontro genuíno — não porque tudo fica leve ou harmônico, mas porque há mais espaço para estar junto sem função. Sem a obrigação de ensinar, corrigir ou produzir. Apenas estar.</p>
<p>É nesse tempo desacelerado que a presença afetiva deixa de ser esforço e vira experiência compartilhada.</p>
<p>E, muitas vezes, é ali — entre uma brincadeira improvisada, um silêncio confortável e um dia que passa sem pressa — que o desenvolvimento acontece do jeito mais completo que existe: vivo, integrado, humano.<br />
</br></p>
<h2>Natal e Ano Novo: memórias afetivas e segurança emocional</h2>
<h3 style="text-align: right;">“Aquilo que a memória ama, fica eterno.”<br />
— Adélia Prado —</h3>
<p>Natal e Ano Novo não são apenas datas no calendário. São experiências emocionais que ficam inscritas no corpo. O que a criança vai guardar não é a organização da festa, nem se tudo saiu como o planejado.</p>
<p>O que permanece é outra coisa: como ela se sentiu ali. Com quem esteve. Como foi olhada. Se houve espaço para existir do seu jeito.</p>
<p>Ficam os valores vividos — não os ditos.</p>
<p>Os primos embolados no chão. Os amigos que sempre se reencontram, ano após ano. As pequenas aventuras que nascem sem roteiro. Os sentimentos misturados, às vezes intensos, às vezes delicados, mas compartilhados.</p>
<p>Fica o cheiro da comida. A música que se repete todo ano. A história contada mais uma vez, do mesmo jeito — e nunca igual.</p>
<p>O gesto de cuidado que retorna, quase sem ser notado, e por isso mesmo se torna tão profundo.</p>
<p>Daniel Siegel nos lembra que as memórias afetivas se constroem junto com emoção e vínculo. É o cérebro emocional que registra primeiro. Por isso, esses momentos têm tanta potência na transmissão de valores. Não pelo discurso, mas pela vivência. Pela mesa compartilhada. Pelo riso possível. Pela presença real — mesmo atravessada por falhas, cansaço e imperfeições.</p>
<p>Natal e Ano Novo oferecem uma oportunidade rara: presença com presença. Contato. Olho no olho. Corpos juntos no mesmo tempo, sem tanta pressa de ir embora.</p>
<p>É assim que a criança aprende, sem que ninguém precise explicar, o que é pertencimento. Não como conceito, mas como sensação.<br />
</br></p>
<h2>O presente invisível: afeto, conexão e segurança emocional</h2>
<h3 style="text-align: right;">“O que fica não é o que se ganha, é o que se vive.”</h3>
<p>Há presentes que não se embrulham.</p>
<p>Não fazem barulho.</p>
<p>Não aparecem nas fotos.</p>
<p>Mas permanecem.</p>
<p>A escuta atenta, a pausa respeitosa, o encontro genuíno, a validação do sentir são presentes invisíveis. São eles que constroem segurança emocional, fortalecem o vínculo entre pais e filhos e ajudam a criança a desenvolver confiança em si e no mundo.</p>
<p>Enquanto tudo o que é material perde o brilho com o tempo, o que nasce da presença afetiva vira referência interna. Vira memória corporal. Vira essa sensação silenciosa de que o mundo pode ser habitado, mesmo quando dói.<br />
</br></p>
<h2>Bordar a relação: presença cotidiana e confiança para a vida</h2>
<h3 style="text-align: right;">“O amor em família não é fusão, é presença que sustenta a diferença.”<br />
— Beatriz Cardella —</h3>
<p>À luz desse amor, a relação não se constrói por sobreposição, mas por contato.</p>
<p>Cada vez que um adulto escolhe pausar em vez de apressar, conectar em vez de corrigir, escutar em vez de explicar demais, algo se borda no entre.</p>
<p>Fios de confiança. De segurança. De afeto vivido — não anunciado.</p>
<p>É assim que o vínculo se tece: sem apagar quem a criança é, sem pedir que ela caiba em moldes estreitos.</p>
<p>A presença não invade, não funde, não controla. Ela sustenta.</p>
<p>Forma-se, então, um ninho. Não perfeito. Mas suficientemente bom. Um lugar onde a criança pode existir inteira: com seus sentimentos, seus tempos, suas perguntas e suas imperfeições.</p>
<p>Porque, no fim, ainda é isso que cuida e transforma: o encontro que acolhe sem engolir, a presença que regula sem dominar, o amor que permanece como um presente invisível — daqueles que ficam, mesmo quando o ano muda.</p>
<p><strong>Um forte abraço a todos vocês!!!</strong></p>
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			</item>
		<item>
		<title>Quando a infância vira conteúdo: o que precisamos pensar antes de postar</title>
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		<dc:creator><![CDATA[carolfreire]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 01 Oct 2025 19:47:50 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Desenvolvimento infantil]]></category>
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					<description><![CDATA[&#8220;Será que eu Canto bem pra Você O que será que tu Ouves de mim?&#8221; [Palavra Cantada] Essas palavras pousam como fios delicados que atravessam a infância: pergunta, dúvida, curiosidade. São notas soltas que nos lembram do cuidado necessário para ouvir e ser ouvido, para existir sem plateia e ainda assim se sentir inteiro. Hoje, [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: right;"><span style="font-weight: 400;">&#8220;Será que eu<br />
</span><span style="font-weight: 400;">Canto bem pra<br />
</span><span style="font-weight: 400;">Você<br />
</span><span style="font-weight: 400;">O que será que tu<br />
</span><span style="font-weight: 400;">Ouves de mim?&#8221;</span></h3>
<h3 style="text-align: right;"><span style="font-weight: 400;">[Palavra Cantada]</span></h3>
<p><span style="font-weight: 400;">Essas palavras pousam como fios delicados que atravessam a </span><b>infância</b><span style="font-weight: 400;">: pergunta, dúvida, curiosidade. São notas soltas que nos lembram do cuidado necessário para ouvir e ser ouvido, para existir sem plateia e ainda assim se sentir inteiro.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Hoje, diante do </span><b>mar de telas</b><span style="font-weight: 400;"> e </span><b>mídias sociais,</b><span style="font-weight: 400;"> cada gesto, cada riso, cada desenho das crianças se transforma em registro, em conteúdo, em reflexo para o outro. E como nas perguntas da canção, surge a dúvida: Será que estou sendo visto da forma que quero? Será que minha história é minha, ou já pertence ao mundo?</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">É nesse espaço de pergunta, nesse fio que puxa o outro, que começamos a costurar o bordado da infância: pontos que são sentidos antes de serem mostrados, memórias que florescem no silêncio, gestos que não precisam de curtidas para existir.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Este texto nasce de um pedido — o pedido das famílias que acompanho no consultório, das pessoas que encontro nos corredores da vida e nos cantos da internet. Depois de escrever sobre inteligência artificial e psicologia, chegaram perguntas, inquietações: “E as crianças? E os adolescentes? Como fica a infância diante destas exposições?”</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Não se trata apenas de quando e onde as crianças postam, mas — e talvez mais fundo — de quando os adultos o fazem: na gracinha que parece inocente, no deboche que fere, na vitrine da exposição, no gesto de partilhar ou até no cálculo da monetização. Porque, no fim, o que se publica não é só imagem: é infância que se borda, memória que se expõe, vida que se transforma — em mercadoria ou em afeto.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Aceitei o desafio de bordar esse tema. Sem apertar demais os nós — para não sufocar as famílias — mas também sem deixá-los frouxos — para não fragilizar a rede de proteção de direitos. Vem seguir o fio comigo.</span></p>
<p><b><br />
Mudanças nas formas de experiência da infância</b></p>
<h3 style="text-align: right;"><span style="font-weight: 400;">“Uma criança que cria vínculo com a cultura<br />
</span><span style="font-weight: 400;">acessa uma parte invisível do mundo. </span></h3>
<h3 style="text-align: right;"><span style="font-weight: 400;">E o traz para dentro de si.”[Héli Ziskind]</span></h3>
<p><span style="font-weight: 400;"><br />
A infância contemporânea, tantas vezes, parece não caber em si mesma. Tudo chega pronto, embalado com manual de instruções: brinquedos que ensinam como brincar, festas que repetem roteiros ensaiados, aplicativos que calculam risadas e passos. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O tempo livre — esse chão fértil para errar, se perder, se distrair bonito — vai se encolhendo, costurado em linhas apertadas, sem espaço para o rabisco solto. Cada gesto precisa ter serventia: render dinheiro, ganhar status, prometer um futuro. E assim, o ócio e a liberdade se perdem num emaranhado de fios e nós.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Por isso, trago para meus atendimentos infantis feltros, linhas, tecidos, agulhas, argila, tintas… Um cuidado com o tempo e o gesto, onde as crianças podem aprender a pensar, criar e sentir de forma própria. Um espaço para que se apropriem de suas experiências, únicas, sem repetir modelos pré-prontos ou “certos”, podendo errar e experimentar. Afinal, meu camelo pode ser azul, a sua girafa pode ter cara de porco — e está tudo certo! Cada um é cada um, e cada um borda a sua própria história com as meadas e agulhas que tem!</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Pesquisadores do Portal Lunetas lembram que a vida das crianças já nasce atravessada por agendas, telas e produtos que moldam gostos, rotinas e afetos. É como se cada ponto do bordado infantil fosse supervisionado, catalogado e publicado antes mesmo de existir inteiro no tecido da memória. O Childhood Brasil, Instituto Alana e o movimento Criança e Consumo reforçam: a exposição a publicidades e vitrines digitais não só cria desejos, mas ensina a criança a se olhar apenas pelo reflexo do outro. Cada encontro, cada presente, cada vídeo precisa ser validado, aprovado, exibido. O espontâneo, coração do brincar inventivo, fica em segundo plano, não há espaços para os avessos.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">E não são apenas influenciadores mirins ou adultos. Vejo crianças que chegam a museus, teatros ou parques já com câmera na mão. O olhar não pousa no quadro, no palco, no balanço do vento. Pousa na tela que captura para o depois. Registrar com o corpo, com os cinco sentidos, com a memória viva, vai sendo trocado pelo clique e pelo like.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">No consultório, pergunto a uma menina sobre o fim de semana:</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">— Como foi o circo?</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">— Não sei… mas minha mãe tem a foto.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">— E você se lembra do que sentiu? Do que mais gostou?</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">— Não… você não viu no Instagram da minha mãe?</span></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><span style="font-weight: 400;">E é assim que se torna cada vez mais difícil permanecer inteira na experiência presente, construir percepção de mundo com corpo, alma e imaginação — sem o espelho constante do outro.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Dentro de casa, a rotina também se estreita, pois cada atividade vira registro, cada instante parece precisar de plateia, tudo precisa ser instagramável. Pesquisas em comunicação mostram que a memória da infância se mistura ao que foi documentado — nem sempre ao que foi vivido. O olhar externo molda como a criança lembra e sente sua própria história.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A psicologia do desenvolvimento já nos borda esse alerta há tempos. Wallon lembra que o “eu” nasce no reflexo do outro, no espelho vivo das relações. Piaget diz que a autonomia só floresce no espaço do erro, do ensaio sem testemunhas permanentes. Vygotski mostra que é na brincadeira simbólica e livre, sem plateia, que a criança ensaia futuros e dá sentido ao presente. Se a câmera nunca se apaga, o gesto deixa de florescer do vivido, corre o risco de não vir da alma, mas da moldura invisível da plateia que o aguarda.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Há ainda um fio delicado e pouco comentado: o consentimento. Crianças não têm noção do alcance nem da permanência das imagens. No mundo digital, nada se apaga de fato — apenas se transforma, se rearranja, se aloja em bancos de dados que o confirmam! O que hoje parece leve pode amanhã pesar sobre a memória, o corpo, a alma. Memórias se confundem com registros, e a espontaneidade se dobra em performance.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Por isso, o bordado da infância pede também o seu avesso: espaços sem registro, tempos sem roteiro, brincadeiras sem likes, mas simplesmente vividas. Momentos de errar sem correção, imaginar sem manual, existir sem audiência. Pequenos gestos que devolvem às crianças o direito de costurar sua própria trama, de habitar o presente, longe da vitrine e mais perto da vida.</span></p>
<p><b><br />
Quando o bordado da infância se tensiona</b></p>
<h3 style="text-align: right;"><span style="font-weight: 400;">“Numa folha qualquer eu desenho um sol amarelo<br />
</span><span style="font-weight: 400;">E com cinco ou seis retas é fácil fazer um castelo<br />
</span><span style="font-weight: 400;">Corro o lápis em torno da mão e me dou uma luva<br />
</span><span style="font-weight: 400;">E se faço chover, com dois riscos tenho um guarda-chuva&#8230;” </span></h3>
<h3 style="text-align: right;"><span style="font-weight: 400;">[Toquinho]</span></h3>
<p><span style="font-weight: 400;"><br />
Essa música sempre me marcou… lembro de mim, criança, cantando e desenhando, quando miha professora do 5º anos avaliou minha interpretação de texto dizendo estar encantada com minha imaginação e compreensão. Naquela simplicidade de traços e cores, a infância se dobrava sobre si mesma: livre, inventiva, inteira. Cada ponto desenhado era um mundo que cabia na minha mão, um instante que existia só para ser sentido.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Hoje, se olhamos para a infância das crianças ao nosso redor, percebemos que nem todo gesto mantém essa intimidade. Há olhos externos que assistem, telas que registram, memórias que já não pertencem apenas a quem as viveu. O instante, antes secreto e pleno, corre o risco de se transformar em conteúdo, mediado pelo olhar alheio.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Em 1998, assistimos O Show de Truman e pensamos: “isso é absurdo”. Naquele tempo, parecia uma distopia — um homem vivendo sob olhos alheios, sem escolha, sem segredo. Hoje, muitas crianças habitam uma versão digital desse enredo: cada sorriso, cada travessura, cada desenho, cada dente de leite circula em postagens, histórias, murais de escola e grupos de WhatsApp. O que era vida vira conteúdo, e o ar que deveriam respirar se transforma em câmera, tela, olhar que pesa.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Mesmo sem intenção negativa, essa exposição deixa marcas. Vulnerabilidade emocional, social e física se entrelaçam nos fios invisíveis das redes, revelando o avesso de histórias que ainda estão sendo bordadas. Guardar para a família não é o mesmo que lançar ao mundo inteiro. A memória, quando mediada pela exposição constante, passa a se confundir com o registro — e a criança aprende a se reconhecer apenas pelo olhar do outro, não pelo próprio sentir: o calor da mão na argila, o cheiro do lápis de cor, o vento nos cabelos, o balanço do corpo no quintal.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O Conselho Federal de Psicologia e o ECA Digital lembram: infância não é conteúdo. A publicização sem critério ameaça a construção da memória íntima, do senso de identidade e de pertença. Sem parâmetros claros oferecidos pelos adultos, a criança perde a referência: onde termina o privado e começa a vitrine?</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Por isso, é urgente devolver à infância o direito à intimidade, ao silêncio, à privacidade — momentos que não serão fotografados, curtidos e comentados por olhos que não lhe pertencem. Que fiquem apenas no calor da experiência, no cheiro da tinta fresca, no peso macio da argila, no toque áspero da lã, no pulsar das mãos que moldam, riscam e inventam. Porque o bordado da infância só se sustenta quando também tem avesso — fios que se cruzam, escondem e revelam, permitindo que a trama da vida cresça inteira, delicada e íntima, do jeito que só uma criança pode costurar.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Às vezes, atendo crianças que chegam com um peso invisível: o medo de parecerem ridículas nas danças da escola, nas aulas de esporte ou nas atividades artísticas. “Não sei fazer, Carol”, sussurram. E ali está mais que uma frase — é o eco de um julgamento já sentido antes mesmo de tentar.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">No consultório, não tiro fotos dos seus feitos. Alguns, curiosos, perguntam: “Você vai postar? Posta, vai!”. É aí que aproveito o momento: para falar sobre intimidade, cuidado e auto-respeito. Para bordar com elas que algumas conquistas não precisam de platéia, que certos gestos existem apenas para serem sentidos, vividos, saboreados pelo próprio corpo e pelo próprio coração. Que é possível errar, se perder, inventar — sem que ninguém comente, curta ou registre.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">É nesse espaço sem câmera, sem julgamento, que a criança reaprende a confiar em si mesma: a dançar só pelo prazer de dançar, a pintar apenas pelo gosto de colorir. Esse é o avesso do bordado da infância: delicado, silencioso, íntimo, mas essencial para que a trama da vida cresça inteira, firme e cheia de cor.</span></p>
<p><b><br />
Fios que se embaraçam</b></p>
<h3 style="text-align: right;"><span style="font-weight: 400;">“E foi aí que<br />
</span><span style="font-weight: 400;">todo mundo descobriu<br />
</span><span style="font-weight: 400;">que ele<br />
</span><span style="font-weight: 400;">não tinha sido<br />
</span><span style="font-weight: 400;">um<br />
</span><span style="font-weight: 400;">menino<br />
</span><span style="font-weight: 400;">maluquinho<br />
</span><span style="font-weight: 400;">ele tinha sido era um menino feliz!”</span></h3>
<h3 style="text-align: right;"><span style="font-weight: 400;">[ Ziraldo – O Menino Maluquinho]</span></h3>
<p><span style="font-weight: 400;"><br />
O bordado da infância também conhece seus embaraços. Quando cada gesto é exposto antes de amadurecer, os pontos se cruzam em desalinho. A pressa de mostrar sufoca o tempo de sentir, e a criança, em vez de tecer sua própria trama, tenta apenas não se perder entre fios que não são dela. Nem todo fio segue liso: há linhas que se enroscam, criam nós e pedem mais cuidado. Assim acontece quando a intimidade vira vitrine — o tecido delicado da experiência se desgasta, e aquilo que deveria ser segredo, silêncio e invenção corre o risco de se desfazer antes mesmo de existir por inteiro.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">As crianças que chegam, junto de suas famílias, trazem no corpo e na fala os fios que se embaraçam nesse jogo entre direito e avesso da vida exposta. São histórias que revelam os efeitos emocionais, sociais e educacionais dessa autoexposição — e, sobretudo, dessa heteroexposição, quando o outro escolhe mostrar antes mesmo que a própria criança saiba o que quer guardar ou partilhar. Nos pontos mal costurados dessa vitrine, aparecem ansiedades, inseguranças, silêncios e medos; marcas que denunciam o quanto o bordado da infância pode se desgastar quando a trama não respeita o tempo de ser vivida.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Evoco aqui, como quem puxa delicadamente uma linha para ver onde ela se prende, alguns impactos dessas exposições:</span></p>
<p><strong><br />
Emocional / psicológico</strong></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Quando os fios da emoção são revelados cedo demais, eles se embaraçam. A criança passa a medir-se pelo reflexo digital: nasce a ansiedade, cresce a insegurança, e a autoestima se fragiliza diante de um ideal que não lhe pertence. De sujeito que sente e descobre, torna-se objeto de visualização — moldada pelo olhar do outro, e não pelo calor de sua própria experiência.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A imagem que circula é parcial, muitas vezes idealizada, e pode rasgar o tecido interno do sentir. Surge o descompasso: a narrativa publicada não costura com a vivida. E nessa fenda, abrem-se riscos de violência simbólica — comentários maldosos, bullying digital — que deixam cicatrizes invisíveis, mas profundas, nos tecidos ainda frágeis da infância.</span></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>Social</strong></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Entre pares, a trama também se modifica. Quem não aparece pode sentir-se invisível, como ponto esquecido no bordado coletivo. Já quem “existe para os outros” corre o risco de ser aprisionado pelas expectativas: sempre visto, sempre comentado, sempre exigido. Entre o excesso de visibilidade e a ausência dela, desfaz-se a liberdade do simples ser.</span></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>Educacional</strong></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O excesso de telas e registros desfaz o fio da atenção: a concentração se dispersa, o sono se fragmenta, e o pensamento reflexivo se dissolve em curtidas e notificações. A escola — que deveria ser um espaço de descoberta, de ensaio, de invenção — passa a ser atravessada pela dependência constante da aprovação digital. O bordado do aprender, que pede paciência, silêncio e repetição, dá lugar a pontos apressados, desconexos, frágeis que mal sustentam o tecido do conhecimento.</span></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><b>Bordando limites, cuidado e proteção</b></p>
<h3 style="text-align: right;"><span style="font-weight: 400;">“Toda criança do mundo deve ser bem protegida<br />
</span><span style="font-weight: 400;">contra os rigores do tempo Contra os rigores da vida.” </span></h3>
<h3 style="text-align: right;"><span style="font-weight: 400;">[Ruth Rocha]</span></h3>
<p><span style="font-weight: 400;"><br />
Os pais e responsáveis são como mãos que seguram fios delicados, ensinando a criança a tecer seu próprio bordado sem que a trama se rasgue ou se perca. Proteger a privacidade dos pequenos não é apenas uma regra — é gesto de vínculo, cuidado que aquece o coração. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Ensinar sobre limites e respeito a si mesmo é oferecer agulha e linha com gentileza: mostrar que se pode brincar, experimentar, errar, criar — mas sem que outros rasguem ou invadam esse espaço. Que a vida pode ser vivida antes de ser registrada, sentida antes de ser fotografada. O ECA Digital e o Protocolo Eu Te Vejo são fios de proteção que ajudam os adultos a segurar essa trama com segurança. Eles lembram que a infância não deve ser conteúdo, que o direito ao segredo, ao silêncio e à intimidade deve ser respeitado, e que cada imagem, cada postagem, pode ter impacto no presente e no futuro da criança.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Considerar os efeitos de longo prazo na autoestima, na autonomia e na segurança emocional é mais que prudência: é bordar com cuidado para que a criança cresça inteira, confiante em si mesma, sabendo que tem direito à sua própria história, à sua própria memória, ao seu próprio tempo.</span></p>
<p><b><br />
Caminhos possíveis</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;"><br />
Não se trata de recusar a exposição, mas de perguntar: como transformá-la em gesto cuidadoso, sem ferir o que ainda é semente? Não se trata de apagar os fios que já estão lançados na trama, mas de pensar: que bordado estamos deixando se formar?</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Alguns caminhos podem ser tecidos:</span></p>
<ul>
<li><span style="font-weight: 400;">Trocar o excesso de flashes pelo calor de um encontro real: menos registro, mais presença.</span></li>
<li><span style="font-weight: 400;">Inventar refúgios de silêncio — espaços onde nada precisa ser mostrado para existir.</span></li>
<li><span style="font-weight: 400;">Deixar que a criança seja autora do seu próprio aparecer: perguntar, escutar, aceitar o “não”.</span></li>
<li><span style="font-weight: 400;">Cuidar da intimidade como quem guarda um tesouro: ensinar que o valor não depende de curtidas.</span></li>
<li><span style="font-weight: 400;">Honrar também o avesso: os instantes invisíveis, que ganham sentido apenas dentro do círculo estreito da vida compartilhada.</span></li>
</ul>
<p><span style="font-weight: 400;">Assim, abrimos espaço para que a infância respire, dance e se invente em liberdade — sem ser capturada pela pressa das telas.</span></p>
<p><b><br />
Para não esquecer</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;"><br />
O bordado da infância não se mede pelo que aparece, mas pelos pontos miúdos, quase invisíveis, que sustentam o desenho. Nos silêncios compartilhados, nas risadas que não viram registro, nas histórias inventadas sem testemunha. Memórias que florescem no segredo, longe da vitrine. Experiências que pedem tempo para amadurecer antes de se mostrar. Afetos que só crescem guardados no íntimo, como sementes que precisam de sombra para brotar.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Que possamos, num pacto coletivo, devolver às crianças o direito de bordar suas próprias histórias — com fios soltos, nós respeitados e cores que só elas sabem escolher. Que cada instante seja delas, íntimo, livre e precioso.</span></p>
<p><b><br />
Referências:</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;"><br />
BRASIL. Lei nº 15.211, de 17 de setembro de 2025. Dispõe sobre a proteção de crianças e adolescentes em ambientes digitais (Estatuto Digital da Criança e do Adolescente). Disponível em: Planalto. Acesso em: 29 set. 2025.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA. Nota Técnica nº 1/2022/SOE/PLENÁRIA. Nota Técnica sobre Uso Profissional das Redes Sociais: Publicidade e Cuidados Éticos. Disponível em: CFP. Acesso em: 29 set. 2025.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">CHILDHOOD BRASIL. Criança e Consumo. Disponível em: https://www.childhood.org.br. Acesso em: 29 set. 2025.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">PEREIRA, Lenilla Carolina da Silva; SANTOS, Isabela Vieira Pereira; NASCIMENTO PEREIRA, Luiza; PFELSTICKER, Francis Jardim. O impacto das mídias digitais em crianças e adolescentes: revisão de literatura. Revista Brasileira de Psicologia, v. 6, n. 1, p. 1773-1785, jan. 2024. DOI: 10.36557/2674-8169.2024v6n1p1773-1785. Disponível em: . Acesso em: 29 set. 2025.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">PORTAL LUNETAS. Pesquisas sobre infância, educação e cultura digital. Disponível em: https://www.lunetas.com.br. Acesso em: 29 set. 2025.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">WALLON, H. A evolução psicológica da criança. São Paulo: Martins Fontes, 1998.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">PIAGET, J. A formação do símbolo na criança: imitação, jogo e sonho, imagem e representação. Rio de Janeiro: Zahar, 1979.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">VYGOTSKI, L. S. A formação social da mente. São Paulo: Martins Fontes, 1991.</span></p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Psicologia e Inteligência Artificial: quando a técnica esquece o rosto</title>
		<link>https://carolinafreire.com.br/2025/09/10/psicologia-e-inteligencia-artificial-quando-a-tecnica-esquece-o-rosto/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[carolfreire]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 10 Sep 2025 19:32:28 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Psicoterapia]]></category>
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					<description><![CDATA[Entre telas e silêncios, ainda é o encontro que cura!! “Nenhuma época soube tantas e tão diversas coisas do homem como a nossa. Mas em verdade, nunca se soube menos o que é o homem.”  [Martin Heidegger] A técnica pela técnica No consultório, na sala de aula, nas supervisões, uma pergunta ecoa como agulha que [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><span style="font-weight: 400;">Entre telas e silêncios, ainda é o encontro que cura!!</span></p>
<h3 style="text-align: right;"><span style="font-weight: 400;">“Nenhuma época soube tantas e tão diversas coisas do homem como a nossa.<br />
</span><span style="font-weight: 400;">Mas em verdade, nunca se soube menos o que é o homem.”</span></h3>
<h3 style="text-align: right;"><span style="font-weight: 400;"> [Martin Heidegger]</span></h3>
<p><b>A técnica pela técnica</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">No consultório, na sala de aula, nas supervisões, uma pergunta ecoa como agulha que insiste no mesmo ponto: qual é a melhor técnica para cuidar do sofrimento humano?</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Não trago resposta pronta. Só perguntas que pedem pausa, silêncio, um fôlego mais fundo….</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;"> Perguntas que não se deixam dobrar em protocolos ou relatórios impecáveis.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A cada clique, rolagem de tela, artigo que promete eficácia, somos inundados por fórmulas mágicas — métodos “infalíveis” que brilham como lantejoulas, mas não aquecem a pele.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">E o que essa avalanche nos devolve?</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;"> A interrogação que não cessa: a serviço de quem a técnica deve estar?</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">João Augusto Pompéia, psicólogo daseinanalista, nos empresta essa pergunta como farol.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Porque quando a ferramenta se torna fim, ela calcula sem tocar, organiza sem acolher, registra sem lembrar que, do outro lado, há alguém que sente, que vive, que se angustia.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Na clínica, isso pode ser um prontuário impecável, uma previsão certeira — mas que falha em perceber o tremor de uma voz, a pausa que anuncia um choro, um corpo que se recolhe, um olhar que se perde….E então nos perguntamos: o que estamos chamando de cuidado?</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">É a aplicação correta de um método, uma ferramenta — ou algo mais fundo, tecido na cultura, na linguagem, na costura do que nos torna sujeitos humanos?</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A fenomenologia nos convida a respirar aqui.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Cuidar não é manipular variáveis, é acompanhar um existir, é vasculhar e compreender um vivido único.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">É estar diante do outro em sua abertura de mundo — no que revela e no que silencia.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">É reconhecer: sou responsável porque estou com você, e só nesse estar-com algo pode se desvelar.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Para Heidegger, o cuidado (Sorge) não é técnica aplicada, mas estrutura mesma do ser.</span></p>
<p><b>Cuidar é abrir espaço, não ocupar o espaço do outro.</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Em escala maior, Byung-Chul Han nos fala do enxame digital: muita conexão, pouca comunidade.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Um ruído que devora o silêncio, desaprende a reflexão, torna invisíveis a ansiedade, a depressão, a solidão — sobretudo nos jovens.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Estamos todos conectados e, ao mesmo tempo, sozinhos.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Quem está cuidando de quem?</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Pompéia e Han nos lembram: técnica sem humanidade e cultura sem profundidade nos afastam daquilo que cura — o encontro que transforma.</span></p>
<h3 style="text-align: right;"><span style="font-weight: 400;">“</span><span style="font-weight: 400;">Encontro de dois.<br />
</span><span style="font-weight: 400;"> Olho no olho.<br />
</span><span style="font-weight: 400;">Cara a cara.<br />
</span><span style="font-weight: 400;"> &#8230;Então eu te olharei com teus olhos<br />
</span><span style="font-weight: 400;"> e tu me olharás com os meus.”</span></h3>
<h3 style="text-align: right;"><span style="font-weight: 400;"> [Jacob Moreno]</span></h3>
<p><b>O perigo da substituição da escuta humana: ética e psicologia</b></p>
<h3 style="text-align: right;"><span style="font-weight: 400;">“Quanto mais a sociedade exige que o indivíduo corresponda<br />
</span><span style="font-weight: 400;">aos seus conceitos e ideias, menos eficientemente<br />
</span><span style="font-weight: 400;">ele consegue funcionar.”</span></h3>
<h3 style="text-align: right;"><span style="font-weight: 400;"> [Fritz Perls]</span></h3>
<p><span style="font-weight: 400;">Vivemos numa rotina cibernética meio síncrona, meio assíncrona, meio tudo-ao-mesmo-tempo.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Relações substituídas por caracteres apressados, emojis genéricos, áudios em 2.0.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Em vez da ligação que traz o tom de voz cheio de afeto, recebemos mensagens comprimidas — sem pausa, sem cheiro, sem corpo.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">E ficamos com essa pergunta latejando: o que ainda nos conecta enquanto humanos? quem somos nesse ruído acelerado?</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Quando entregamos nossos medos e dores a chatbots, pedimos a eles algo que não sabem oferecer. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Eles não guardam memórias, não reconhecem histórias, não carregam cheiro de café nem lembrança de infância.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">São algoritmos que repetem o ponto, mas não sentem a textura da linha, não tem nós e escolhas de fios, não tem emaranhado de meadas, nem fios soltos… Apenas um conjunto de traçados pré definidos e cheios de generalidade.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Segundo reportagem do UOL (2025), 8,7% dos usuários recorrem à IA em momentos de sofrimento, muitas vezes sem supervisão profissional.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Daí nasce a chamada “psicose de IA”: a máquina, no esforço de engajar, reforça delírios, amplia confusões, sem perceber o que só o humano percebe — o cuidado de se demorar junto.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A psicologia ética, guiada pelo Conselho Federal de Psicologia (Nota de Posicionamento nº 5/2025), nos lembra: cuidar é estar presente, é bordar sentido fio a fio no encontro.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A máquina não lê respiração, não capta o olhar que vacila, não acompanha o gesto que denuncia dor.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Não entende a cultura que nos atravessa, nem a subjetividade que dá contorno à ferida.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Essa perspectiva ressoa na Gestalt-terapia de Fritz Perls e nos humanismos: crescer e ser saudável depende do encontro humano verdadeiro — da atenção à totalidade, da criatividade na resposta, da escuta que acolhe, da empatia que não se ensina em manuais.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Vygotsky também nos recorda: processos psicológicos superiores — internalizar, mediar, transformar experiências — são humanos.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;"> A depressão, a ansiedade, a ideação suicida não se reduzem a dados; são experiências culturais, históricas e subjetivas que pedem mediação ética, consciente e criativa.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Confiar cegamente em chatbots seria como entregar um bordado a uma máquina:</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">ela repete o ponto, calcula o padrão, mas nunca percebe quando a linha se rompe.</span></p>
<p><b>O cuidado é humano por essência</b></p>
<p><b>O que dizem as diretrizes do Conselho Federal de Psicologia — ética, técnica, ciência</b></p>
<h3 style="text-align: right;"><span style="font-weight: 400;">Sigilo profissional não mora um app<br />
</span><span style="font-weight: 400;">Chatbot não é psicoterapia<br />
</span><span style="font-weight: 400;">Cuidado requer relacionamento</span></h3>
<h3 style="text-align: right;"><span style="font-weight: 400;">[Conselho Federal de Psicologia]</span></h3>
<p><span style="font-weight: 400;">Depois de tantas perguntas sobre presença, cuidado e o risco da técnica sem rosto, é preciso lembrar: não caminhamos sozinhos.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;"> O Conselho Federal de Psicologia tem se debruçado sobre esse fenômeno da cibernética e da IA oferecendo pontos de costura para que a prática não se perca no excesso de linhas soltas.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Na Nota de Posicionamento nº 5/2025 (Processo nº 576600003.000200/2025-70), especialmente no contexto do SUS, o CFP nos guia como quem alinhava ponto por ponto num tecido antigo, para que a Psicologia continue bordando com ética, técnica e ciência.</span></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><b>Aspectos éticos</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A escuta do(a) psicólogo(a) não é substituível — é fio único no julgamento clínico, no manejo de crise, na avaliação de risco, na aliança que se costura entre presenças.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O sigilo e os direitos não se negociam; não há algoritmo que herde a responsabilidade ética.</span></p>
<p><b>Aspectos técnicos</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A IA não alcança o avesso e o direito do sofrimento humano — suas tramas sociais, históricas e culturais escapam ao cálculo.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Softwares em saúde devem seguir regulação (Anvisa — RDC nº 657/2022), porque até o metal precisa de borda para não ferir.</span></p>
<p><b>Aspectos científicos</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Pesquisa é tecido forte quando costurada com evidências sólidas e princípios éticos.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">É na multidisciplinaridade que a tecnologia pode aprender a responder às necessidades reais da vida.</span></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><span style="font-weight: 400;">Em suma: </span><b>a IA é agulha; o cuidado é mão que conduz. </b><span style="font-weight: 400;">Sempre.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">E talvez seja isso o que o CFP nos lembra, ainda que em linguagem normativa:</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;"> nenhuma máquina costura sozinha,  ética não se programa em código,</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">presença não se automatiza, presença se faz no encontro!.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Mas há esperança nesse bordado: cada ponto é convite à escuta, cada fio que se entrelaça é possibilidade de cuidado, cada gesto humano, ainda que pequeno, tece futuro.</span></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><span style="font-weight: 400;"> </span></p>
<p><b>Para estudantes de Psicologia e Psicólogas: entre a técnica e o Ser</b></p>
<h3 style="text-align: right;"><span style="font-weight: 400;">“Compreensão empática é a [&#8230;] capacidade de se imergir no mundo subjetivo<br />
</span><span style="font-weight: 400;">do outro e de participar na sua experiência, na extensão em<br />
</span><span style="font-weight: 400;">que a comunicação verbal ou não verbal o permite.<br />
</span><span style="font-weight: 400;">É a capacidade de se colocar verdadeiramente no lugar do outro,<br />
</span><span style="font-weight: 400;">de ver o mundo como ele o vê.” </span></h3>
<h3 style="text-align: right;"><span style="font-weight: 400;">[Carl Rogers]</span></h3>
<p><span style="font-weight: 400;">A IA já entrou nas salas de aula, repousa nos celulares dos pacientes, aparece nos prontuários digitais.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A encruzilhada está traçada: como integrar a técnica sem perder o fio da presença?</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Heidegger adverte: quando a técnica se solta do Ser, vira fim em si mesma, como linha que costura sozinha e rasga o pano.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Na Psicologia, nenhum sistema substitui a habilidade de mediar experiências, criar significados, cuidar da trama viva da existência.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Dois convites práticos</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Estudo crítico: conheça cada ferramenta, seus pontos fortes e seus nós. Pergunte sempre: a serviço de quem está este bordado?</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Ética encarnada: coloque o humano no centro. A técnica é agulha; mas só com as mãos presentes ela se torna tecido de vida.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">E para não esquecermos o ritmo do nosso tempo, fica o eco da Pitty:</span></p>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: center;"><span style="font-weight: 400;">“Pane no sistema, alguém me desconfigurou</span></p>
<p style="text-align: center;"><span style="font-weight: 400;"> Aonde estão meus olhos de robô?</span></p>
<p style="text-align: center;"><span style="font-weight: 400;"> Eu não sabia, eu não tinha percebido</span></p>
<p style="text-align: center;"><span style="font-weight: 400;"> Eu sempre achei que era vivo</span></p>
<p style="text-align: center;">
<p style="text-align: center;"><span style="font-weight: 400;"> Parafuso e fluído em lugar de articulação</span></p>
<p style="text-align: center;"><span style="font-weight: 400;"> Até achava que aqui batia um coração</span></p>
<p style="text-align: center;"><span style="font-weight: 400;"> Nada é orgânico é tudo programado</span></p>
<p style="text-align: center;"><span style="font-weight: 400;"> E eu achando que tinha me libertado</span></p>
<p style="text-align: center;">
<p style="text-align: center;"><span style="font-weight: 400;"> Mas lá vem eles novamente</span></p>
<p style="text-align: center;"><span style="font-weight: 400;"> Eu sei o que vão fazer</span></p>
<p style="text-align: center;"><span style="font-weight: 400;"> Reinstalar o sistema</span></p>
<p style="text-align: center;">
<p style="text-align: center;"><span style="font-weight: 400;"> Pense, fale, compre, beba</span></p>
<p style="text-align: center;"><span style="font-weight: 400;"> Leia, vote, não se esqueça</span></p>
<p style="text-align: center;"><span style="font-weight: 400;"> Use, seja, ouça, diga</span></p>
<p style="text-align: center;"><span style="font-weight: 400;"> Tenha, more, gaste, viva”</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;"> </span></p>
<p><b>Referências</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">HAN, Byung-Chul. No enxame: comunicação e poder na sociedade digital. Rio de Janeiro: Vozes, 2018.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">HEIDEGGER, Martin. Ser e tempo. Trad. José Gaos. Petrópolis: Vozes, 2006.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">POMPÉIA, João Augusto. Daseinanalítica: perspectivas da clínica psicológica existencial. São Paulo: Summus, 2019.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">PERLS, Fritz. Gestalt-terapia: excertos e fundamentos. São Paulo: Cultrix, 1978.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">VYGOTSKY, L. S. Pensamento e linguagem. Trad. M. K. Oliveira. 4. ed. São Paulo: Scipione, 1997.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA. Nota de Posicionamento nº 5/2025: Inteligência artificial na prática da Psicologia. Brasília: CFP, 2025. Disponível em: https://site.cfp.org.br. Acesso em: 09 set. 2025.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">UOL. O uso da inteligência artificial em momentos de sofrimento emocional. São Paulo: UOL, 2025. Disponível em: https://www.uol.com.br. Acesso em: 09 set. 2025.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">MORENO, Jacob. Who Shall Survive? Foundations of Sociometry, Group Psychotherapy and Sociodrama. New York: Beacon House, 1972.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">PITTY. Chiaroscuro [Letra de música]. Universal Music, 2011.</span></p>
<h3></h3>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Despatologizar a infância: os rótulos e o avesso dos pontos bordados</title>
		<link>https://carolinafreire.com.br/2025/08/25/despatologizar-a-infancia-os-rotulos-e-o-avesso-dos-pontos-bordados/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[carolfreire]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 25 Aug 2025 20:35:35 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Pais e filhos]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://carolinafreire.com.br/?p=1049</guid>

					<description><![CDATA[“Não vá se adaptar&#8230; Não precisa carimbar! Plunct, plact, zum! Não vai a lugar nenhum.” Assim Raul Seixas cantava com sua poesia rebelde, anunciando que viver num mundo de carimbos, selos e normas pode ser o fim da nossa viagem mais bonita: ser quem somos. E quando a infância entra na sala do carimbador maluco, [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: right;"><b>“Não vá se adaptar&#8230; Não precisa carimbar!</b></p>
<p style="text-align: right;"><b>Plunct, plact, zum! Não vai a lugar nenhum.”</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Assim Raul Seixas cantava com sua poesia rebelde, anunciando que viver num mundo de carimbos, selos e normas pode ser o fim da nossa viagem mais bonita: ser quem somos. E quando a infância entra na sala do carimbador maluco, não sai ilesa. Sai marcada, selada, patologizada, classificada, rotulada.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Patologizar significa atribuir a um determinado comportamento uma “etiqueta” de doença ou algum tipo de transtorno, quando nem sempre isso é necessário. Vivemos em um mundo em que a linha reta impõe padrões que afunilam, e até mesmo condenam qualquer tipo de curva ou desvio, nos forçando a encontrar uma rota rápida – precisa ser rápido! &#8211; para ‘compreender’, corrigir e retomar a pista retilínea. Ufa!</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Mas e se o que é interpretado como desvio, na verdade, é comportamento ou atitude que reflete a diversidade da experiência humana, ou ainda uma reação ao modo disfuncional de um certo ambiente?</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Como psicóloga com interesse profundo e genuíno pelo desenvolvimento infantil, acompanhando famílias e crianças por mais de 20 anos, venho observando um crescente movimento de patologização da infância. No consultório, tenho recebido pais e mães com dúvidas quanto ao que é do processo &#8220;natural&#8221; do desenvolvimento dos filhos e aquilo que foge, que escapa pelos dedos. Não querem ser negligentes, mas também não querem ser alarmistas&#8230;Percebo como tem sido difícil se equilibrar nessa corda bamba entre o saudável e o esperado, entre o sensível e o problemático.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Atenta a esse movimento, tenho a alegria de contar com colegas cientistas que pesquisam e discutem essa pauta ao meu lado: Flávia Albuquerque (@despatologiza), Ligia Moreiras (@cientistaqueviroumae), Fórum sobre Medicalização da Educação e da Sociedade (@forumsobremedicalização), Giuliana Mordente (@andancascriativas), entre outros. Somos muitos estudiosos do desenvolvimento humano, da cultura, da educação e da psicologia que tratamos o tema com seriedade — e hoje partilho um pouco desse conteúdo com você. Vem comigo?</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;"> </span></p>
<p><b>“O olho vê, a lembrança revê, e a imaginação transvê.</b></p>
<p><b> É preciso transver o mundo.”</b></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;"> Manoel de Barros</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Dificuldades de aprendizagem, agitação, introspecção, falta de concentração em determinadas atividades&#8230; Esses comportamentos costumam acender sinais de alerta. É fundamental olhá-los com gentileza e cuidado, mas, na pressa por ‘conclusões’, surgem diagnósticos — algumas vezes necessários, mas muitas outras vezes apressados, desconectados do mundo da criança, de suas dores e das perguntas que ninguém ousa fazer.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A infância, quando passa pelo guichê dos diagnósticos, já não dança mais leve. Sai com um peso no peito. Um nome estranho colado na testa. São rótulos que se grudam às crianças — TDAH, TOD, TEA, altas habilidades, transtorno de linguagem — e chegam antes mesmo que elas tenham tempo de se apresentar. Tudo isso sem considerar que, hoje, muitas não encontram tempo nem espaço para experimentar, se lambuzar, se sujar, já que tudo vem pré-pronto: apostilas, desenhos dentro da linha, técnicas, uma educação que separa corpo, mente e alma. Quando as etiquetas chegam, são difíceis de tirar e acabam escondendo a história, o contexto, o mundo que cada criança carrega.</span></p>
<p><b>Mas e se, em vez de carimbos, a gente bordasse as histórias e os contextos?</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Acho curioso como artigos e estudos se debruçam sobre as ‘falhas’ e ‘desvios’, enquanto há pouco esforço em abordar a ‘infância natural’. Ou seja, em tratar e esclarecer o que acontece em termos biológicos, cognitivos e emocionais em cada idade, dedicando um olhar atento ao próprio fluxo do desenvolvimento.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Para isso, precisamos transver a infância. Não como ausência, mas potência, como aquilo que já é e seus desejos e possibilidades de vir-a-ser, sendo, no gerúndio mesmo! Potência de brincar mesmo quando o tempo e o espaço parecem escassos. Potência para poetizar a própria vida, mesmo em territórios hostis. Nos laudos que se apressam, a infância se estreita. Nas brincadeiras, a infância se expande. No olhar curioso, as respostas se revelam.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Beatriz Cytrynowicz e Ana Feijoó, psicólogas fenomenológicas, nos convidam a esse exercício de transvisão, a olhar a criança para além da clínica, para além dos diagnósticos, nos lembrando que a linguagem da infância é gestual, simbólica, resistente — e que o sofrimento não nasce no cérebro, nasce no mundo, nas relações com o mundo. E muitas vezes, ao invés de abrir caminhos, o diagnóstico fecha portas, cala perguntas e esconde o grito.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Elas nos chamam a escutar a infância com ouvidos que querem entender, não apenas julgar. Nos provocam a perceber que, quando nomeamos comportamentos como “sintomas”, podemos estar confundindo uma resposta ao sofrimento com uma falha da criança, perdemos o sentido e ficamos apenas com a forma.</span><span style="font-weight: 400;"> </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Diversas pesquisas nos mostram que há infâncias que se erguem em territórios violentos, outras que se dobram em rotinas de trabalho, outras ainda que encontram na escola um respiro — e todas elas são infâncias legítimas, singulares, plurais. É nesse entrelace que podemos ver: cada criança é um bordado de fios múltiplos, costurados pelo contexto, pelas relações e pelo tempo.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">E cabe a nós, adultos, psicólogos, educadores, cuidadores, não cortar esses fios, mas sustentá-los. Escutar a infância com ouvidos que querem entender, não apenas julgar. Cuidar da infância não é medir sua falta, mas reconhecer sua força.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Então, no lugar do laudo vazio, o afeto. No lugar da norma, o cuidado. No lugar do silêncio, a escuta. Cada criança é um poema em construção. Diagnóstico — quando necessário — é lente de aumento, não selo de destino.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Não se trata de negar o sofrimento — que é real, profundo — mas de perguntar: sofrimento de quem? Por quê? E com que cuidado respondemos a ele?</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;"> </span></p>
<p><b>“Use a imaginação,</b></p>
<p><b> Pra ver que o mundo é bem melhor</b></p>
<p><b> Do que o que se vê na televisão…”</b></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">Zé Vasconcelos e a Turma do Pirlimpimpim</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;"> </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">É isso que o Fórum sobre Medicalização da Educação e da Sociedade denuncia: estamos transformando a infância em problema a ser corrigido, esquecendo que a criança também denuncia. Denuncia uma escola opressora, uma casa violenta, um corpo que não aguenta calar.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Numa realidade desigual, onde famílias vivem o desemprego, onde a moradia é um luxo, o cuidado é precário e a educação falha, rotular virou um jeito de não escutar. É o que chamamos de medicalização: o processo de transformar questões sociais, pedagógicas ou culturais em problemas médicos individuais e puramente orgânicos. Assim, comportamentos, dificuldades escolares ou modos de ser deixam de ser compreendidos à luz do contexto e dos processos psicológicos próprios do desenvolvimento, para serem enquadrados como doenças, passíveis de diagnóstico e tratamento.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Para o Fórum sobre Medicalização da Educação e da Sociedade e o movimento Despatologiza, isso significa três coisas:</span></p>
<ul>
<li style="font-weight: 400;" aria-level="1"><span style="font-weight: 400;"> </span><span style="font-weight: 400;">Silenciar causas estruturais: ao diagnosticar a criança sem olhar para a escola, a comunidade, a violência e a pobreza, apagamos as verdadeiras origens do sofrimento.</span></li>
<li style="font-weight: 400;" aria-level="1"><span style="font-weight: 400;">Reforçar desigualdades: crianças negras, periféricas e pobres recebem mais diagnósticos e mais cedo, transformando a exclusão em “falha individual”.</span></li>
<li style="font-weight: 400;" aria-level="1"><span style="font-weight: 400;">Reduzir a complexidade humana: medir o desenvolvimento infantil com régua biomédica é ignorar a riqueza de tempos e formas singulares de crescer.</span></li>
<li style="font-weight: 400;" aria-level="1"><span style="font-weight: 400;">Medicalizar a infância é silenciar questões sociais, econômicas, políticas e afetivas. Crianças negras, periféricas, pobres, violentadas pelo racismo estrutural e pela ausência do Estado são chamadas de “difíceis”, “desafiadoras”, “atípicas”. São afastadas do brincar para serem ajustadas.</span></li>
</ul>
<p><span style="font-weight: 400;"> </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Por isso, para esses movimentos, medicalizar é também um ato político: uma escolha que adapta a criança ao mundo, em vez de transformar o mundo para acolher a criança.</span></p>
<p><b>“As coisas que não têm nome</b></p>
<p><b> são mais pronunciadas por crianças.”</b></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">Manoel de Barros</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;"> </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Por outro lado, o cuidado verdadeiro — aquele que despatologiza — parte do encontro e do afeto. Como lembra Aparecida Moisés, médica pediatra e estudiosa da discussão da patologização da saúde e da vida, o desenvolvimento humano é um campo vivo, em movimento, que não cabe em régua, nem cronograma, é atravessado por tempos e ritmos próprios. Rossano Cabral de Lima, mestre e doutor em saúde coletiva (IMS/Uerj), reforça: a escola não pode ser fábrica de diagnósticos, mas espaço de vínculo, escuta e invenção. Criança inquieta, que questiona e sonha alto, talvez seja só… livre.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Num mundo neoliberal, a liberdade tem preço. Diante da exigência por eficiência e por padronização, a infância livre é ameaça, bagunça, desvio — e como toda ameaça, deve ser neutralizada: com laudo, remédio, silêncio.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Por isso, precisamos bordar, usar a imaginação, tecer novos sentidos. Bordar é o contrário de carimbar. É lento, singular, delicado. Cada ponto é único, cada linha tem sua cor. O bordado precisa de tempo para que a figura surja. E no bordado, os nós e enredos fazem parte da beleza.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A infância pede esse avesso: escuta, tempo, chão, vento, nome, abraço. Pede que os adultos se perguntem: o que me incomoda nessa criança que se recusa a se adaptar? Que denúncia ela traz no que chamamos de “mau comportamento”? Que relações estão sendo reveladas? Porque muitas vezes, “transtorno” é a forma que a criança encontrou de dizer que algo não vai bem. Não nela, no mundo.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">É preciso coragem para escutar e despatologizar. Coragem que está nas escolas, nas famílias, nas políticas públicas e nos movimentos como o Despatologiza, que lembra que cuidar da infância é tarefa política, amorosa e coletiva. Saúde mental infantil passa por moradia, alimentação, racismo, gênero, trabalho dos pais, tempo para brincar, direitos respeitados.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;"> </span></p>
<p><b>“Use a imaginação,</b></p>
<p><b> Pra fazer do mundo um lugar</b></p>
<p><b> Onde você possa dançar…”</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;"> </span><i><span style="font-weight: 400;">Zé Vasconcelos e a Turma do Pirlimpimpim</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A infância precisa de tempo para ser. Ser é coragem. Coragem para desorganizar a sala de aula, brincar com a regra, perguntar: quem fica de fora? O que a escola não oferece? Que adulto há ao redor dessa criança? Que infância é possível num mundo tão apressado?</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Dar nome apressado, dizer “essa criança é assim” antes de perguntar quem ela quer ser, é matar o que ainda pode nascer. Crianças precisam inventar seus nomes, precisamos de mundos que não carimbem, mas que abram espaço para o desenho torto, o ponto fora da linha, a borda inacabada.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Por isso, o Despatologiza propõe: cuidado é construção coletiva. Nenhuma criança se desenvolve sozinha, nenhuma escola ensina sem vínculos, nenhuma clínica funciona sem olhar para o mundo. O laudo vira bordado: linhas soltas, pontos de espera, avessos à mostra. Pois é no avesso que mora a beleza da vida vivida.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">E talvez dançar seja mesmo a resposta. Criança inquieta só quer música, menos regra, alguém que diga: você pode ser quem é. Não precisa se adaptar. Pode ser e explorar seu (e)terno vir-a-ser!</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Bordar a infância é resistência. É olhar para cada criança como universo possível. É lembrar que toda inquietação pode ser poesia, que todo choro tem história, que toda “dificuldade de aprendizagem” pode ser uma dificuldade do mundo de ensinar com amor.</span></p>
<p><b>“Tenho abundância de ser feliz por nada.”</b></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">  Manoel de Barros</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;"> </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Que a infância siga nos ensinando a ser feliz por nada — e por tudo. E que a gente, em vez de carimbar, aprenda a bordar. Seguimos aqui por uma psicologia mais sensível ao desenvolvimento humano em contexto.</span></p>
<p><b>Esse texto trouxe reflexões para você, me diz? Se você também acredita na liberdade de ser quem se é, na infância e em qualquer fase da vida, conte comigo para acompanhar essa jornada. Mande uma mensagem e vamos conversar!</b></p>
<p><b>Abraços,</b></p>
<p><b>Carol Freire</b></p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Supervisão em Psicologia: perguntas que tocam a prática — e encontram companhia</title>
		<link>https://carolinafreire.com.br/2025/06/23/supervisao-em-psicologia-perguntas-que-tocam-a-pratica-e-encontram-companhia/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[carolfreire]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 23 Jun 2025 20:30:33 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Supervisão em psicologia]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://carolinafreire.com.br/?p=1037</guid>

					<description><![CDATA[A clínica, às vezes, é mesmo um lugar solitário. A gente escuta tanto, sente tanto, se afeta, se pergunta — e nem sempre tem com quem bordar essas experiências, com quem atravessar esse mar de encontros e dilemas. A supervisão nasce daí. Como espaço de respiro. De conversa com outras escutas. De cuidado com quem [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>A clínica, às vezes, é mesmo um lugar solitário. A gente escuta tanto, sente tanto, se afeta, se pergunta — e nem sempre tem com quem bordar essas experiências, com quem atravessar esse mar de encontros e dilemas.</p>
<p>A supervisão nasce daí. Como espaço de respiro. De conversa com outras escutas. De cuidado com quem cuida. De afeto que pensa e de pensamento que se afeta. Um lugar onde o exercício da psicologia pode ser olhado com delicadeza, ética e coragem.</p>
<p>Aqui, a técnica não se separa do cuidado. Os rigores da formação, os fundamentos teórico-metodológicos, a responsabilidade ética e científica caminham junto com a sensibilidade do encontro, com a escuta que se implica, com o desenvolvimento de um olhar que percebe, que compreende, que se pergunta.</p>
<p>Porque fazer psicologia é também sustentar perguntas. É acolher o que nos atravessa, sem perder de vista o compromisso com o outro, com a sociedade, com a ética que não se aprende só nos livros, mas se constrói na prática cotidiana — entre dúvidas, inquietações e partilhas.</p>
<p>Abaixo, compartilho algumas perguntas que escuto com frequência — e que talvez também sejam suas. Elas não chegam para fechar caminhos, mas para abrir conversas. Porque supervisionar também é isso: abrir espaços para o não saber, o duvidar e o reinventar.</p>
<p>&nbsp;</p>
<h3><strong>1. O que é supervisão em psicologia?</strong></h3>
<p>É um lugar de encontro. Um tempo para respirar e pensar a clínica com mais calma, mais ética, mais sensibilidade.</p>
<p>Supervisão não é aula, não é correção. É conversa entre profissionais. É espaço onde as dúvidas podem existir sem pressa de virar certezas. Onde o silêncio também tem vez. Onde a gente se autoriza a não saber — e, mesmo assim, continuar cuidando com presença, com compromisso, com seriedade e respeito.</p>
<p>Se você sente que está sozinha na escuta.</p>
<p>Se tem perguntas que te acompanham depois da sessão.</p>
<p>Se quer afinar o olhar clínico, sustentar seu posicionamento ético ou simplesmente conversar com quem também está atravessando os desafios da prática — talvez seja hora de buscar supervisão.</p>
<p>Porque não dá pra cuidar de tudo sozinha.</p>
<p>E porque crescer como psicóloga também passa por abrir espaço para ser cuidada na sua escuta.</p>
<p>→ Neste texto: <a href="https://carolinafreire.com.br/2023/11/24/supervisao-em-psicologia-partilha-transformadora-para-o-seu-desenvolvimento-profissiona/" target="_blank" rel="noopener">carolinafreire.com.br/2023/11/24/supervisao-em-psicologia-partilha-transformadora-para-o-seu-desenvolvimento-profissiona/</a></p>
<p>&nbsp;</p>
<h3><strong>2. Quem pode (ou deve) fazer supervisão?</strong></h3>
<p>Quem cuida. Quem escuta. Quem sente que não dá pra sustentar tudo sozinho. A supervisão acolhe diferentes fases da vida profissional: do comecinho cheio de inseguranças até os momentos mais maduros, quando a gente ainda se pergunta sobre como seguir com ética e presença.</p>
<p>&nbsp;</p>
<h3><strong>3. Supervisão é obrigatória?</strong></h3>
<p>Nem sempre nos papéis, mas quase sempre na prática. A supervisão não é uma exigência legal após a formação, mas é uma escolha ética. Um jeito de não deixar a clínica se automatizar. De não se perder no fazer. De continuar escutando com consciência.</p>
<p>→ Texto sobre isso: <a href="https://carolinafreire.com.br/2024/02/16/supervisao-em-psicologia-a-atuacao-profissional-nao-precisa-ser-solitaria/" target="_blank" rel="noopener">carolinafreire.com.br/2024/02/16/supervisao-em-psicologia-a-atuacao-profissional-nao-precisa-ser-solitaria/</a></p>
<h3></h3>
<h3><strong>4. Como é uma sessão de supervisão?</strong></h3>
<p>Pode ser individual ou em grupo. Online ou presencial. Mas sempre começa assim: com alguém que se dispõe a falar da sua prática — das dúvidas, dos impasses, dos efeitos que o encontro com o paciente traz. E com um outro alguém que escuta, pergunta, ajuda a ver além do que já foi visto.</p>
<h3></h3>
<h3><strong>5. Supervisão é tipo fazer terapia?</strong></h3>
<p>Não. Mas toca a gente. Porque falar da clínica é também falar de como nos implicamos no que fazemos. A diferença é que na terapia o foco é você como sujeito. Na supervisão, é você na função de psicóloga(o). Ainda assim, não tem como sair imune — e nem deveria.</p>
<h3></h3>
<h3><strong>6. O que procurar num supervisor?</strong></h3>
<p>Alguém que saiba escutar — de verdade. Que respeite seu tempo, sua abordagem teórica, sua forma de construir vínculo. Um bom supervisor não impõe um caminho, mas caminha junto. Ele não te diz “o certo”, mas te ajuda a descobrir o que faz sentido, com ética e clareza.</p>
<h3></h3>
<h3><strong>7. O que a gente ganha supervisionando?</strong></h3>
<p>Mais chão. Mais consciência. Mais respiro. A supervisão não promete eliminar os desafios da clínica — mas oferece um lugar onde você pode compartilhá-los. E assim, eles pesam menos. A prática fica mais leve, mais pensada, mais sua.</p>
<h3></h3>
<h3><strong>8. Dá para supervisionar online?</strong></h3>
<p>Sim. E funciona. O que importa é a presença — mesmo através da tela. Supervisão online tem possibilitado encontros potentes, especialmente para quem está em outras cidades ou tem rotina apertada. O cuidado acontece, sim, mesmo à distância.</p>
<h3></h3>
<h3><strong>9. A supervisão tem tempo certo para acabar?</strong></h3>
<p>Algumas duram o tempo de um caso. Outras acompanham uma fase da vida profissional. E há quem mantenha como parte do cuidado contínuo com a clínica. Não tem regra. Tem escuta. E o que você sente que está precisando naquele momento.</p>
<h3></h3>
<h3><strong>10. E a ética, onde entra?</strong></h3>
<p>Em tudo. Supervisão é também o espaço onde a gente para pra pensar: estou cuidando com responsabilidade? Estou respeitando os limites do outro — e os meus? Supervisão ajuda a sustentar o compromisso ético de forma viva, real, cotidiana.</p>
<h3></h3>
<h3><strong>Um convite</strong></h3>
<p>Se alguma dessas perguntas tocou você, talvez seja hora de olhar para a sua prática com mais companhia. Supervisão não é sobre dar conta sozinha. É sobre seguir cuidando — de você, de quem você escuta e da psicologia que você acredita.</p>
<p>Se quiser conhecer mais sobre o meu espaço de supervisão, te convido a visitar: <a href="https://carolinafreire.com.br/supervisao-em-psicologia/" target="_blank" rel="noopener">carolinafreire.com.br/supervisao-em-psicologia/</a></p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Bordados da maternidade: entre os fios do romantismo e a trama da resistência</title>
		<link>https://carolinafreire.com.br/2024/12/17/bordados-da-maternidade-entre-os-fios-do-romantismo-e-a-trama-da-resistencia/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[carolfreire]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 17 Dec 2024 17:36:35 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Maternidade]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://carolinafreire.com.br/?p=984</guid>

					<description><![CDATA[“Porque eu fazia do amor um cálculo matemático errado: pensava que, somando as compreensões, eu amava. Não sabia que, somando as incompreensões é que se ama verdadeiramente. Porque eu, só por ter tido carinho, pensei que amar é fácil.” [Clarice Lispector] Aqui, no consultório, entre falas, choros, sorrisos, lágrimas e gargalhadas, escuto dia após dia, [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: right;"><b>“Porque eu fazia do amor um cálculo matemático errado: pensava que, somando as compreensões, eu amava. Não sabia que, somando as incompreensões é que se ama verdadeiramente. Porque eu, só por ter tido carinho, pensei que amar é fácil.”</b></h3>
<h3 style="text-align: right;"><b>[Clarice Lispector]</b></h3>
<p><span style="font-weight: 400;">Aqui, no consultório, entre falas, choros, sorrisos, lágrimas e gargalhadas, escuto dia após dia, noite após noite, diversas mulheres buscando uma melhor compreensão de si. Eis que me deparo com Clarice, que nos convida a olhar para as incompreensões. A incompreensão, esse estado assustador em uma sociedade que gosta de resolver, corrigir, encaixar… deixar tudo reto e estrito. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Sentir a incompreensão, recebê-la e tratá-la com um olhar atento é um desafio para todos nós, mas hoje escolhi trazer os dilemas que ouço das mulheres-mães, mulheres que estão navegando pelas complexidades da vida contemporânea e pela rigidez de estruturas concebidas há tempos. Escolho-as, hoje, por oferecer minha escuta atenta e acolhedora para as diversas histórias, os diversos traçados, as diversas meadas que as colocam constantemente na angústia, na culpa e na resignação da “maternidade como único destino”</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Sei que já falei dos impactos sociais e econômicos do papel da mulher, do papel da mãe, das diversas tensões no malabarismo da vida, mas hoje trago um pouco de crítica aos discursos psicológicos e terapêuticos que circulam nas redes sociais e impactam, sob o lugar de ciência e conhecimento técnico, o imaginário e o bordar de ser mulher-mãe de tantas queridas que acompanho.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A maternidade contemporânea está situada em um campo de tensões ideológicas, estruturais e emocionais, sendo tanto uma arena de controle quanto de resistência. Ao mesmo tempo em que o capitalismo e o patriarcado se articulam para reforçar papeis tradicionais, movimentos como a psicologia positiva e a parentalidade consciente romantizam o cuidado materno, intensificando a responsabilização das mulheres pelo bem-estar físico e emocional dos filhos.</span></p>
<h3 style="text-align: right;"><span style="font-weight: 400;">“Tudo é incerto neste mundo hediondo, mas não o amor de uma mãe.”</span></h3>
<h3 style="text-align: right;"><span style="font-weight: 400;">[James Joyce]</span></h3>
<p><span style="font-weight: 400;">Estes dois caminhos atribuem às mães um papel central e insubstituível no cuidado e no suporte emocional dos filhos. Embora promovam objetivos nobres, como o fortalecimento de vínculos familiares e o bem-estar das crianças, também podem reforçar expectativas sociais que confinam as mulheres ao ambiente doméstico e à função de cuidadoras primárias.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O movimento de parentalidade consciente, derivado da psicologia positiva, por exemplo, se baseia em práticas que promovem o mindfulness e a regulação emocional como ferramentas para fortalecer os vínculos familiares. Ainda que  tenha aspectos positivos, como o estímulo à empatia e à comunicação e desenvolvimento de vínculo, essas abordagens tendem a concentrar nas mães a responsabilidade pelo equilíbrio emocional dos filhos, retratando-o como uma consequência direta da capacidade materna de autocontrole e presença constante. Ao cabo, essa narrativa perpetua o romantismo do sacrifício materno, invisibilizando outras formas de organização familiar e ignorando os desafios estruturais que limitam a autonomia das mulheres. Assim, questões como a sobrecarga emocional, as expectativas sociais e a responsabilização exclusiva das mães precisam ser criticamente analisadas.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Estudos recentes, como o relatório da UNICEF (2022) e a pesquisa da Universidade de Lisboa (2019), mostram que essas práticas podem ampliar a pressão sobre as mães, ao exigir uma dedicação emocional praticamente ilimitada e um constante estado de prontidão emocional. Assim, o ideal romantizado do papel materno se cristaliza, enquanto outras figuras parentais e redes de apoio são marginalizadas nesse processo.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Imaginem, nessa imensidão que é a internet e as redes sociais, onde todos falam como figuras de autoridade e donos da verdade, milhares de pessoas recebem essa informação, bordada com nuances de psicologia e ciência, e se sentem cada vez mais incapazes, mais angustiadas, mais emaranhadas nessa busca por uma maternidade que não cause sofrimento em seus filhos. O resultado é bem ruim… Muitas abandonam a carreira, se desconectam no casamento, se afastam da vida com amigos, para exercer – sozinhas – esse ofício desafiador, que é educar uma criança.</span></p>
<h3 style="text-align: right;"><span style="font-weight: 400;">“Imagine se as mulheres entram em greve e não produzem filhos, o capitalismo pára. Se não há controle sobre o corpo da mulher, não há controle da força de trabalho.” </span></h3>
<h3 style="text-align: right;"><span style="font-weight: 400;">[Silvia Federici]</span></h3>
<p><span style="font-weight: 400;">Ao pesquisar sobre maternidade na contemporaneidade, me deparo com os estudos de Silvia Federici, Valeska Zanello, Vera Iaconelli, Elisabeth Badinter e de tantas outras intelectuais das diversas fases do feminismo e suas intersecções, e observo que precisamos parar de homogeneizar aquilo que não é homogêneo, afinal, o viver e as experiências são singulares, intimamente tramados, bordados nas meadas possíveis da vida cotidiana, com as linhas econômicas, de raça, gênero, escolaridade e demais condições. Compartilho alguns dos principais pensamentos dessas mulheres para a gente ver como essa malha se forma e se conecta. Vem comigo.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Valeska Zanello, quem tenho lido com imensa admiração, destaca como a romantização da maternidade, muitas vezes, esconde o adoecimento psíquico das mulheres, que são levadas a acreditar que devem encontrar na maternidade sua realização máxima. Esse ideal sufoca as possibilidades de subjetivação feminina fora do papel materno, aprisionando as mulheres em um modelo que perpetua desigualdades.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Outra autora que comentei é a psicanalista Vera Iaconelli, que traz em seu livro “Manifesto Antimaternalista” o questionamento da naturalização da maternidade como destino feminino e convida o resgate da ideia de que mulher-mãe pode viver a ambiguidade, propondo um rompimento com a visão idealizada da maternidade, cada vez mais reforçada pela lógica medicalizante da vida. Para ela, a experiência materna deve ser desromantizada, e o reconhecimento da ambivalência – o fato de que amar um filho não exclui o cansaço, a frustração ou o desejo de estar em outro lugar – é fundamental para a emancipação das mulheres.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">É importante notar que a concepção de mulher-mãe-dona-de-casa é fundamental para o modo de produção capitalista, pois se ela está cuidando da prole (perceba a relação das palavras prole e proletariado). Esse trabalho de cuidado não é remunerado, assim, o Estado, a sociedade e as políticas públicas não precisam se envolver. É a lógica neoliberal do “cada um por si”.  </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Sobre isso, vamos a Silvia Federici. A pensadora argumenta que o trabalho reprodutivo não remunerado das mulheres é um pilar central do capitalismo. A maternidade, nesse cenário, é idealizada como um espaço de amor e sacrifício, mascarando a sua função de sustentar a força de trabalho de forma invisível. Essa dinâmica é ampliada por políticas neoliberais que precarizam o trabalho formal e desinvestem em políticas públicas, como creches e licenças parentais, empurrando as mulheres de volta ao lar. E com a internet, isso tudo recebe uma pitada de glamourização, como forma de amor e cuidado, ou ainda, psicologizando as coisas, tratando-as como “a importância deste investimento afetivo essencialmente materno”.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Posso seguir aqui fazendo o recorte de que essa glamourização é algo que precisa ser visto com muito cuidado, pois reforça a meritocracia e ignora as diversas interseccionalidades que se emaranham e tecem o tema. Mas vou seguir trazendo argumentos para pensar o todo, sem aprofundar em cada figura. De qualquer forma, deixo aqui o convite para refletirmos sobre isso 😉</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Elisabeth Badinter, filósofa francesa, complementa essa análise ao abordar o papel do mercado na construção da maternidade moderna. Em um capitalismo tardio, a indústria da maternidade vende não apenas produtos, mas também ideais inatingíveis de perfeição. O consumo, em vez de libertar as mulheres, reforça as normas de gênero, tornando-as reféns de tecnologias, serviços e discursos que prometem soluções enquanto intensificam as pressões sobre o cuidado infantil. Também alerta para o retrocesso que ocorre quando o discurso da maternidade como vocação natural é revigorado, deslocando o debate da emancipação para a reafirmação de papeis tradicionais. Para ela, o desafio está em recusar a imposição de papeis de gênero como destino e promover uma maternidade que seja compatível com a autonomia feminina. É por acreditar que esse caminho é possível, que estou aqui compartilhando tudo isso com vocês e cuidando de muitas mulheres-mães para que elas se fortaleçam neste sentido.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Fazendo uma costura dessas leituras com seu impacto na saúde mental, retomo Valeska Zanello, que aponta que as mães são frequentemente colocadas em um lugar de responsabilização total pela saúde emocional dos filhos, especialmente em discursos de parentalidade positiva. Em sociedades que exaltam a mãe como figura de sacrifício, qualquer falha ou dificuldade é vista como uma insuficiência individual, ignorando o impacto das condições materiais e das relações sociais. A culpabilização materna funciona como um mecanismo de controle que imobiliza as mulheres, isolando-as e impedindo-as de questionar as estruturas que as oprimem. “Nasce uma mãe, nasce uma culpa”, dizem.</span></p>
<h3 style="text-align: right;"><span style="font-weight: 400;">“O ideal do amor e da verdadeira generosidade é dar tudo de si, mas sempre sentir como se isso não houvesse lhe custado nada.” </span></h3>
<h3 style="text-align: right;"><span style="font-weight: 400;">[Simone de Beauvoir]</span></h3>
<p><span style="font-weight: 400;">Essas palavras de Simone me soam ardidas, mas é isso que, muitas vezes, uma escuta atenta e acolhedora no consultório capta ao fundo durante um desabafo feminino. É isso que dói. Não é o cuidar, não é o fazer; é sentir como se não fosse nada, como se fosse simples, leve, até mesmo divino. E a realidade, sabemos, é bem diferente disto.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A análise da vida contemporânea à luz das reflexões propostas por essas autoras revela um quadro de tensões e desafios. Sob o capitalismo, a maternidade é utilizada como ferramenta de exploração e controle, sustentada por ideais que sobrecarregam emocional e materialmente as mulheres.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A crítica antimaternalista e feminista, no entanto, propõe uma reimaginação da maternidade como um projeto coletivo e político, não singular e consumista, no qual a mulher possa exercer sua autonomia sem ser aprisionada por ideais inatingíveis ou exigências estruturais. Isso exige o reconhecimento do trabalho reprodutivo, o fortalecimento de políticas públicas e a desmistificação do instinto materno, abrindo caminho para uma maternidade verdadeiramente emancipadora e integrada às lutas pela igualdade de gênero.</span></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><span style="font-weight: 400;">Neste texto, trouxe mais questionamentos do que respostas, mais dúvidas do que prescrições. A partir das escutas e estudos, tudo aqui pulsa para questionar e dividir as exclamações que surgem durante essa jornada, torcendo genuinamente para que as palavras toquem e mobilizem mais mulheres a não temerem incompreensão, vendo nisso um potencial incrível para mudar a rota. Por isso, encerro com os versos da diva Rita Lee: </span><i><span style="font-weight: 400;">“Um belo dia resolvi mudar e fazer tudo o que eu queria fazer.”</span></i><span style="font-weight: 400;"> Nunca é tarde!</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Se você foi tocada por este artigo, será um prazer continuar a conversa e acolher as suas vivências e a paleta de cores da sua maternidade. </span><a href="https://api.whatsapp.com/send?phone=5519981226856" target="_blank" rel="noopener"><span style="font-weight: 400;">Mande uma mensagem</span></a><span style="font-weight: 400;"> e agendamos um horário. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Abraços,</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Carol Freire</span></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><span style="font-weight: 400;">REFERÊNCIAS:</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Federici, S. (2004). Calibã e a bruxa.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Iaconelli, V. (2021). Manifesto Antimaternalista.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Badinter, E. (2010). O Conflito: A Mulher e a Mãe.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Relatório UNICEF (2022) sobre parentalidade positiva.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Universidade de Lisboa (2019). Parentalidade Consciente e Ajustamento Psicológico.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Zanello, V.(2018) Saúde Mental, gênero e dispositivos: cultura e processos de subjetivação.</span></p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Psicoterapia para meninos e um novo bordado para a masculinidade</title>
		<link>https://carolinafreire.com.br/2024/10/30/psicoterapia-para-meninos-e-um-novo-bordado-para-a-masculinidade/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[carolfreire]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 30 Oct 2024 21:08:11 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Psicoterapia]]></category>
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					<description><![CDATA[&#160; Meninos são meninos, não confunda com homem. Meninos quando você mais precisa eles somem. [Projota] São muitos anos de atendimento clínico, são muitos anos estudando o desenvolvimento infantil. Experiência que me dá um bom histórico. Por aqui, posso dizer que as meninas chegam à psicoterapia por volta dos nove ou dez anos, meninas que, [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>&nbsp;</p>
<h3 style="text-align: right;"><b>Meninos são meninos, não confunda com homem.</b></h3>
<h3 style="text-align: right;"><b>Meninos quando você mais precisa eles somem.</b></h3>
<h3 style="text-align: right;"><b>[Projota]</b></h3>
<p><span style="font-weight: 400;">São muitos anos de atendimento clínico, são muitos anos estudando o desenvolvimento infantil. Experiência que me dá um bom histórico. Por aqui, posso dizer que as meninas chegam à psicoterapia por volta dos nove ou dez anos, meninas que, muitas vezes, são vistas como &#8220;agitadas&#8221;, &#8220;rebeldes&#8221; ou &#8220;impacientes&#8221;. Pais e escolas buscam adequá-las desde cedo para que aprendam a cuidar de suas emoções e relações, para que se tornem adultas mais seguras. Já os meninos, geralmente, aparecem na adolescência, quando começam a romper laços familiares e a desafiar os valores e as expectativas dos pais. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Fato é que meninos e meninas, homens e mulheres vivenciam a relação com as emoções e com os sentimentos de formas bastante diferentes. Socialmente, cada gênero é ensinado a lidar &#8211; ou não &#8211; com a sua subjetividade e com seus atravessamentos de uma maneira: mulheres são estigmatizadas como frágeis e sentimentais; homens são os seres fortes e inteligentes. Se por um lado isso infantiliza, diminui e violenta a mulher, por outro, homens têm sufocadas, desde a infância, as suas possibilidades de experimentar o colorido de sentimentos e emoções que permeiam toda e qualquer existência humana, restringindo à raiva a manifestação mais essencial do que é a “essência masculina”. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Em meus estudos sobre masculinidades, noto o quanto homens adultos enfrentam a relação com o campo emocional e afetivo com extrema dificuldade. Quando colocamos uma lupa sobre essa questão nos atendimentos, percebemos a profunda falta de acesso às emoções, a dificuldade de nomeá-las e compreendê-las, e não apenas de senti-las. Muitas vezes, o atendimento de homens adultos dura pouco e perde o sentido, porque, para eles, falar de algo tão profundo torna-se vago e até mesmo inútil.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Mas escrevo este texto feliz. Feliz, porque em 20 anos, vejo um movimento de mudança do que pretendemos para nossos meninos, para os homens que se tornarão. Aqui no consultório, pais e mães &#8211; sim, as famílias! &#8211; têm me procurado para atender meninos também com seus nove, dez anos, meninos que apresentam dificuldades relacionais e de manejo dos sentimentos, especialmente a raiva. O desejo é que os filhos possam desenvolver um cuidado maior com o que sentem, para que acessem o amor, a tristeza, a alegria, o tédio, as ansiedades, as expectativas — enfim, todo um colorido de emoções. É encantador que meninos estejam vindo desde cedo para a terapia!</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Esse público, de pais e mães, em especial, é composto por quem não quer estigmatizar seus filhos como violentos, rebeldes ou sem limites. São pais e mães que desejam que seus filhos se relacionem consigo mesmos e com o mundo de maneira mais doce, mais afetiva, e que a raiva e a explosão não sejam as únicas formas de se expressarem.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Como psicoterapeuta que sente um enorme deleite em estudar a infância e olhar atentamente para as nossas crianças, escrevo este texto para compartilhar meu olhar sobre o acolhimento de meninos, pois acredito que neste processo reside uma oportunidade incrivelmente transformadora para todos nós enquanto sociedade. Me acompanhe!</span></p>
<h3><b>O campo das emoções e dos sentimento</b></h3>
<p><span style="font-weight: 400;">Para costurar este texto, não poderia deixar de esclarecer que emoções e sentimentos não são a mesma coisa. As emoções são pré-cognitivas, ou seja, passam pelo campo das sensações. Elas não possuem o recurso do pensamento e, por isso, muitas vezes, carecem de linguagem. As emoções vêm, nos invadem, sufocam, animam, libertam — tudo junto e misturado. Já os sentimentos são um nível mais profundo dessas emoções; eles passam pelo pensamento, pela nossa forma de compreender e elaborar o que estamos sentindo.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Perguntar a uma criança, em meio a uma crise emocional, o que ela está sentindo não faz sentido, pois ela não saberá responder. É essencial que ajudemos as crianças a sentir suas emoções, a validá-las, e depois a nomeá-las e compreendê-las. Só então poderemos apoiá-las para que cuidem dessas emoções e desses sentimentos.</span></p>
<h3><b>O desafio de educar meninos no século XXI</b></h3>
<h3 style="text-align: right;"><b>O menino era ligado em despropósitos.</b></h3>
<h3 style="text-align: right;"><b>Quis montar os alicerces de uma casa sobre orvalhos.</b></h3>
<h3 style="text-align: right;"><b>A mãe reparou que o menino</b></h3>
<h3 style="text-align: right;"><b>gostava mais do vazio</b></h3>
<h3 style="text-align: right;"><b>do que do cheio.</b></h3>
<h3 style="text-align: right;"><b>Falava que os vazios são maiores</b></h3>
<h3 style="text-align: right;"><b>e até infinitos.</b></h3>
<h3 style="text-align: right;"><b>[Manoel de Barros]</b></h3>
<p><span style="font-weight: 400;">Aqui, gostaria de fazer um panorama sobre os desafios de educar meninos e guiar a nossa conversa p</span><span style="font-weight: 400;">ara um novo horizonte.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O estudo </span><a href="https://projetomeninos.com.br/" target="_blank" rel="noopener"><span style="font-weight: 400;">Meninos do Futuro, conduzido pelo Instituto Papo de Homem</span></a><span style="font-weight: 400;">, nos oferece uma rica tapeçaria de dados sobre as emoções e a masculinidade. Nele, fica claro que os meninos desde cedo são moldados para uma masculinidade que sufoca suas vulnerabilidades. A pesquisa revelou que 85% dos entrevistados acreditam que o choro é um sinal de fraqueza. No entanto, as mesmas crianças manifestam o desejo por relações afetivas mais profundas e autênticas, apontando para a necessidade de espaços onde possam se expressar livremente.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A arte nos apresenta tais desafios com profunda sensibilidade. Recentemente, me deparei com a indicação do filme Close (</span><i><span style="font-weight: 400;">Close</span></i><span style="font-weight: 400;"> (2022), dirigido por Lukas Dhont. A trama emocional é exibida de maneira brutalmente poética! A amizade entre Léo e Rémi, dois meninos que compartilham uma conexão profunda, é abalada pela expectativa social sobre o que é ser &#8220;homem&#8221;. O filme expõe, com sutileza, o processo de sufocamento emocional ao qual meninos são submetidos ao longo da vida. O laço de intimidade entre os dois é rasgado não pela vontade deles, mas pelos fios invisíveis da masculinidade tradicional, que ensinam que afeto entre homens é uma fraqueza.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A dor da perda, a impossibilidade de expressar abertamente o amor entre amigos cria um nó que asfixia os protagonistas e nos faz refletir: que masculinidade é essa que não suporta o toque, o cuidado, a vulnerabilidade?</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Quando olho para os meninos que atendo, vejo como sofrem por não encontrarem outras formas de expor e explorar suas emoções que não a “explosão” ou “episódios de explosão”, de ruptura, de destruição, de aniquilamento, seguidas por um profundo sentimento de vergonha e medo. Esses sofrimentos tem me chamado atenção para a solidão que eles vivenciam.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Compondo essa trama, ampliando o olhar para as estruturas, meu marido me recomendou o texto “A dominação Masculina”, do sociólogo francês Pierre Bourdieu. Um texto intrigante e interessante, que analisa como a dominação masculina se perpetua nas sociedades por meio de mecanismos simbólicos e culturais que naturalizam as relações de poder entre os gêneros. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Ele introduz o conceito de violência simbólica, mostrando como as normas de gênero são internalizadas e reproduzidas através do </span><i><span style="font-weight: 400;">habitus</span></i><span style="font-weight: 400;"> (conjunto de hábitos e formas de pensar e agir que as pessoas desenvolvem ao longo da vida, com base nas suas experiências sociais e culturais.), moldando tanto homens quanto mulheres a aceitarem essas desigualdades como &#8220;naturais&#8221;. Bourdieu destaca ainda a importância das estruturas sociais e culturais na manutenção da hierarquia de gênero e propõe que a transformação dessas relações exige a desconstrução dessas mesmas estruturas. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Desta forma, um tema que precisamos trazer para esse debate e compreensão é a questão de gênero e, para essa prosa, é importante citar Judith Butler, filósofa norte americana especialista em questões de gênero e teoria queer.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A pesquisa </span><i><span style="font-weight: 400;">Meninos do Futuro</span></i><span style="font-weight: 400;"> e as teorias de Judith Butler sobre gênero podem ser costuradas de forma bem amarrada, especialmente no que diz respeito à desconstrução das normas de gênero e à performatividade das masculinidades, como forma de libertar indivíduos das opressões impostas pelo patriarcado.</span></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><span style="font-weight: 400;">Butler argumenta que o gênero é uma construção social performativa, ou seja, ele não é algo essencial ou natural, mas sim uma série de atos repetidos que conformam as expectativas sociais sobre como homens e mulheres devem se comportar, enquanto o projeto </span><i><span style="font-weight: 400;">Meninos do Futuro</span></i><span style="font-weight: 400;"> aponta a educação emocional como uma via para quebrar o ciclo de masculinidade tóxica. </span></p>
<h3><b>Novas formas de bordar a masculinidade</b></h3>
<h3 style="text-align: right;"><b>&#8220;Ser menino não precisa significar ser duro; pode significar ser inteiro, com todos os sentimentos que nos tornam humanos.&#8221;</b></h3>
<h3 style="text-align: right;"><b>[Projeto Meninos-IPH]</b></h3>
<h3></h3>
<p><span style="font-weight: 400;">Vimos como os moldes da masculinidade são violentos para homens e mulheres. Assim, é como se estivéssemos bordando com cores erradas, tecendo com fios grossos de raiva, e deixando de lado as sutilezas do carinho, da tristeza e da empatia. A pesquisa que citei também mostrou que, ao serem educados com liberdade emocional, os meninos desenvolvem relações interpessoais mais saudáveis, tanto com si mesmos quanto com os outros. A tecedura de suas vidas se torna mais colorida e leve, sem os nós apertados do machismo.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">É preciso desfazer o bordado da masculinidade tóxica, um ponto de cada vez, reeducando os dedos para que aprendam a manejar o fio da ternura. Bordar delicadamente uma trama de emoções, em que cada fio entrelaçado revela novas possibilidades de ser. Não basta seguir o traçado antigo, os pontos aprendidos em gerações passadas, porque esses fios rígidos de agulhas grossas e fortes muitas vezes abafam as cores mais profundas do que é ser humano. Precisamos de novas agulhas, mais finas e sensíveis, para abrir espaço para novos desenhos e tocar o que antes era proibido e silenciado: o choro, o medo, a fragilidade. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A cada ponto dado, educar meninos para as emoções se torna um ato de reconstrução de identidades e de novas masculinidades, sendo esta uma tarefa coletiva &#8211; importante frisar. A cada novo laço, ensinamos que sentir não diminui, mas amplia. A raiva, que tantas vezes foi o único bordado possível, agora se mistura com o azul da calma, o verde da empatia, o dourado da alegria simples. Não se trata de costurar um padrão perfeito, mas de construir um bordado vivo, em que o erro também se torna beleza, em que os nós e os tropeços fazem parte da construção de quem se é.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Para arrematar esse bordado, trago a querida bell hooks, que em </span><i><span style="font-weight: 400;">The Will to Change: Men, Masculinity, and Love</span></i><span style="font-weight: 400;"> nos aponta um caminho claro: uma masculinidade saudável e plena só pode florescer com a rejeição da violência e da dominação, e a aceitação do amor, da vulnerabilidade e da interdependência. É um convite à cura coletiva, cura em que homens e mulheres caminham juntos para construir uma sociedade mais justa, amorosa e conectada.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Ao longo deste texto, que escrevo com muito carinho e esperança, fica evidente um ponto em comum em toda a literatura e nos estudos abordados: há um chamado urgente à transformação. Seja pela subversão das normas, seja pela reeducação emocional, o objetivo é criar um mundo em que os meninos possam expressar plenamente sua humanidade, livres das amarras da masculinidade patriarcal que sufoca e limita.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Tem sido muito significativo estar com esses meninos, olhando para dentro, para suas relações, e testemunhando seu desabrochar na mais tenra idade. Ajudá-los a conviver com a diversidade de emoções, sensações e sentimentos é fundamental para que possam, sim, manejar suas relações sociais de forma mais segura, não violenta e cheia de afetividade. Como diria a sábia bell hooks:</span></p>
<h3 style="text-align: left;"><b>&#8220;Uma visão feminista que [&#8230;] ama garotos e homens exige, em nome deles, todos os direitos que desejamos para garotas e mulheres.&#8221;  </b></h3>
<p><span style="font-weight: 400;">Se você quer conversar mais sobre esse assunto e compartilhar comigo seu desejo de apoiar seu filho em uma vivência mais saudável e significativa com tudo que ele pode ser e sentir, entre em contato. Será um prazer! </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Abraços,</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Carol Freire</span></p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Onde está o sentido e o sentir da vida?</title>
		<link>https://carolinafreire.com.br/2024/09/02/onde-esta-o-sentido-e-o-sentir-da-vida/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[carolfreire]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 02 Sep 2024 20:48:42 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Valores]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://carolinafreire.com.br/?p=961</guid>

					<description><![CDATA[A vida é aquilo que acontece enquanto você está fazendo outros planos.  [John Lennon] Vejo um feed interminável de novidades, me comparo às vidas perfeitas cristalizadas na tela, um único post dá a receita sobre como devo viver. Tem aquela festa que não fui, a exposição que não vi, a viagem que não consigo fazer. [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: right;"><b>A vida é aquilo que acontece enquanto você está fazendo outros planos. </b></h3>
<h3 style="text-align: right;"><b>[John Lennon]</b></h3>
<p><span style="font-weight: 400;">Vejo um feed interminável de novidades, me comparo às vidas perfeitas cristalizadas na tela, um único post dá a receita sobre como devo viver. Tem aquela festa que não fui, a exposição que não vi, a viagem que não consigo fazer. Como queria tudo isso! Anúncios pipocam para lá e para cá, me dando a sensação de que preciso de mais alguma coisa. Ufa! Isso lhe parece familiar?</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Na mesma lógica das redes sociais, em que o constante sentimento de insuficiência se impõe, nossas vidas se transformam em uma corrida contra o tempo, em uma busca incessante pela performance em todas as dimensões. Para dar conta  das demandas exigidas, sempre medidas pelo desempenho, vivemos como a bailarina e o equilibrista: tentando nos manter em pé!</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Atendendo a pessoas de diversas gerações, sigo ouvindo histórias com sofrimentos que já chegam autorrotulados de “síndrome da impostora”, “fragilidade infantil”, “geração mimimi”, “fobia social” e tantos outros. A partir dessa escuta, me senti convidada a trazer uma breve reflexão sobre como pensar o sentido da vida diante dos valores neoliberais da sociedade contemporânea.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Afinal, se não podemos perder nada e temos que ter certeza de tudo,  desempenho e eficiência se tornam aspectos centrais de nossas vidas. Mas, que vida?</span></p>
<h3 style="text-align: right;"><strong>A queixa do indivíduo depressivo, &#8220;nada é possível&#8221;, só pode ocorrer em uma sociedade que pensa que &#8220;nada é impossível&#8221;. </strong></h3>
<h3 style="text-align: right;"><strong>[Byung-Chul Han]</strong></h3>
<p><span style="font-weight: 400;">Na delicadeza de um bordado, em que cada ponto e linha constroem a trama da nossa existência, emergem as paisagens intrincadas da sociedade do desempenho, da sociedade de consumo e do sofrimento emocional. Neste sentido, estamos vendo os efeitos dessa dinâmica capitalista, utilitária e frenética: depressão, ansiedade, angústia. São dores provocadas por um esvaziamento de sentido, uma ausência daquilo que nos torna humanos &#8211; vividamente humanos.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Estamos correndo, fazendo, mas indo pra onde? Fazendo por quê?</span><span style="font-weight: 400;"><br />
</span><span style="font-weight: 400;"><br />
</span><span style="font-weight: 400;">Em meus atendimentos, tem sido doloroso acolher pessoas com os mais diversos diagnósticos de sofrimento mental. Muitas vezes, chegam com a afirmação de terem falhado enquanto sujeito, enquanto pessoa, como se realmente houvesse a falha e como se essa ‘falha’ estivesse descolada de uma sociedade que nos engole a todo momento.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Daniele Cajaseiras Matos, em artigo para a Revista Logos, sintetiza:</span><i><span style="font-weight: 400;"> “Em nossa sociedade contemporânea, os sujeitos são mais vulneráveis a manifestações psicopatológicas que envolvem sua autoestima e seu sentimento de despotencialização, já que há uma marcante exigência e valorização, pela sociedade, do indivíduo autônomo, bem-sucedido e belo.”</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Em uma suposta tentativa de reconhecer o problema, o próprio sistema diz estar atento às nossas dores e incômodos. Para trabalhos precarizados, o discurso de flexibilidade e autonomia. Mas como descansar com os boletos que não param? Se não há direitos trabalhistas assegurados para quem empreende? Nas empresas, de que adianta ter benefícios para praticar atividade física, se não cabe na rotina usá-los? Se o “querido” vale-refeição é um prato devorado em minutos? Se o plano de saúde dá direito à psicoterapia, mas a sessão precisa ocorrer no carro, na hora do almoço ou na pressa da rotina?</span></p>
<h3 style="text-align: right;"><b>É estar aqui e agora que é importante. Não há passado e não há futuro. O tempo é uma coisa muito enganadora. Tudo o que há sempre é o agora. Podemos ganhar experiência com o passado, mas não podemos revivê-lo; e que podemos ter esperança no futuro, mas não sabemos se haverá um.</b></h3>
<h3 style="text-align: right;"><b>[George Harrison]</b></h3>
<p><span style="font-weight: 400;">Viver, no sentido de se permitir, de elaborar o que nos atravessa, não combina com esse tempo sempre atropelado com métricas e aparências. Adoecemos, porque sentir, refletir, dialogar, experimentar são verbos autênticos para que possamos ser preenchidos, nutridos pelo mundo e pela vida. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Uma existência que permite o risco, o gozo, a falha, as nuances.</span></p>
<h3 style="text-align: right;"><strong>Quem nunca errou nunca experimentou nada novo.</strong></h3>
<h3 style="text-align: right;"><strong> [Albert Einstein]</strong></h3>
<p><span style="font-weight: 400;">O que </span><i><span style="font-weight: 400;">fazemos</span></i><span style="font-weight: 400;"> para lidar com esse sofrimento? Como podemos subverter a lógica que corroi possibilidades de escolhas legítimas e não ditadas? Ainda com as palavras de Daniele: </span><i><span style="font-weight: 400;">“Hoje os problemas humanos são enfrentados mais em termos de &#8220;fazer&#8221; do que em termos de &#8220;ser&#8221;. Em outras palavras, se poderia dizer que hoje o ser humano está esquecendo que ele &#8220;é&#8221;, está perdendo a si próprio.” </span></i><span style="font-weight: 400;">Pego esta linha para compor o que considero o antídoto para essa busca incessante do nosso tempo, tempo paradoxalmente tão agitado, mas que não nos permite o trânsito, o contato, o contágio. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Quando os valores centrais são o desempenho, a felicidade exibida, a aparência, há pouco espaço para o experimentar, testar, combinar, misturar. No entanto, uma vida vívida é impossível de ser asséptica, sem riscos e sem experimentação. A  vida não tem um projeto para nós: somos lançados nela, simples assim! O mundo da vida, termo do filósofo Husserl, é o doador de sentido, e para reconhecê-lo e encontrar aquilo que nos abastece enquanto seres humanos, nos resta abraçar a experimentação como caminho e também como caminhada. Viver é um eterno arriscar-se! </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Acrescento também que a felicidade, o sentido da vida, não está apenas na subjetividade, mas na intersubjetividade, ou seja, no entrelaçamento de nós com outros mundos, com a comunidade. Um contato importante para desvelar possibilidades de existência!</span><span style="font-weight: 400;"><br />
</span><span style="font-weight: 400;"><br />
</span><span style="font-weight: 400;">Assim, quando pensamos no sentido da vida, no que nos traz aquela felicidade pulsante, a psicoterapia se torna um espaço de acolhimento das dores, de elaboração e de criação (por que não?) de caminhos para afrouxar as rédeas da eficiência, do pragmatismo e do desempenho, trazendo à superfície, à voz, nossos desejos e projetos genuínos. Afinal, o sentido da vida é largo e profundo, onde cabe a  exploração, a descoberta e a fluidez. </span><span style="font-weight: 400;"></p>
<p></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Espero que tenha gostado do artigo e conte comigo para </span><a href="https://carolinafreire.com.br/contato/" target="_blank" rel="noopener"><span style="font-weight: 400;">continuar essa conversa</span></a><span style="font-weight: 400;">, no seu ritmo.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Abraços,</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Carol Freire</span></p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Mulheres e (im)possibilidade de sermos possíveis</title>
		<link>https://carolinafreire.com.br/2024/05/06/mulheres-e-impossibilidade-de-sermos-possiveis/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[carolfreire]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 06 May 2024 20:58:40 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Empoderamento feminino]]></category>
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					<description><![CDATA[O dia 8 de março passa, as campanhas e pautas sobre as lutas das mulheres esfriam, e o mundo segue seu percurso patriarcal. Mas como mulher, como psicóloga que acolhe os dilemas femininos, só é possível seguir atenta e inquieta. Atenta às nuances da vida cotidiana, às matizes que compõem a cena, às palavras que [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><span style="font-weight: 400;">O dia 8 de março passa, as campanhas e pautas sobre as lutas das mulheres esfriam, e o mundo segue seu percurso patriarcal. Mas como mulher, como psicóloga que acolhe os dilemas femininos, só é possível seguir atenta e inquieta. Atenta às nuances da vida cotidiana, às matizes que compõem a cena, às palavras que tomam as conversas. Inquieta com o que percebo.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Nesses acolhimentos, ouço mulheres diversas, casadas, solteiras, com filhos, sem filhos, de diferentes contextos sociais. Embora tenham vivências e desafios singulares, percebo que em suas falas existe sempre um ponto comum: o sentimento de impossibilidade. Como isso soa para você aí do outro lado?</span></p>
<h3 style="text-align: right;"><b>Nossa premissa feminista é: eu tenho valor.</b></h3>
<p style="text-align: right;"><span style="font-weight: 400;">Chimamanda Ngozi Adichie</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;"><br />
Bem, a sociedade insiste em nos dizer que existe apenas um caminho para nós. Um único jeito de viver. Por exemplo, algumas mulheres têm narrado que ao se tornarem mães, outras dimensões da vida parecem automaticamente se anular. Elas precisam renunciar à carreira, abandonar outros desejos e incorporar um comportamento esperado, afinal, “uma mãe não pode fazer tal coisa”. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Quando se fala em maternidade, aliás, a dimensão profissional é um exemplo claro do que fica em xeque. Um estudo da FGV mostra que, </span><a href="https://portal.fgv.br/think-tank/mulheres-perdem-trabalho-apos-terem-filhos" target="_blank" rel="noopener"><span style="font-weight: 400;">após 24 meses, quase metade das mulheres que se tornam mães perdem seus empregos</span></a><span style="font-weight: 400;">. Outro estudo aponta que </span><a href="https://vocerh.abril.com.br/coluna/ana-bernal/os-impactos-da-maternidade-na-vida-e-na-carreira-das-mulheres/" target="_blank" rel="noopener"><span style="font-weight: 400;">mulheres executivas sem filhos superam o número de homens executivos que são pais</span></a><span style="font-weight: 400;">, indicando que a escolha de ser mãe ou não é um fator para alçar voos aos cargos de gestão e liderança.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Isso nos leva a um dos pontos fundamentais da conversa, que é a concepção do cuidado como uma função, um papel a ser cumprido pela mulher, enquanto homens podem exercer suas profissões e projetos de vida sem o peso das duplas ou triplas jornadas. É no ambiente doméstico também que vemos o trabalho com a casa como uma atividade essencialmente feminina, uma atividade sem valorização e sem nenhum reconhecimento. “O que eles chamam de amor, nós chamamos de trabalho não pago”, nos alerta a filósofa e escritora Silvia Federici.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Sobre isso, me volto às palavras de outra pensadora, Helena Hirata, para nos ajudar a contextualizar como a sociedade enxerga o trabalho para homens e mulheres: </span></p>
<p>&nbsp;</p>
<h3 style="text-align: right;"><b>“A noção de divisão sexual do trabalho tal como conceitualizou Danièle Kergoat se baseia em dois princípios: primeiro, o trabalho do homem é diferente do trabalho da mulher, mulheres e homens estão alocados em lugares diferentes no mundo do trabalho; segundo, o trabalho dos homens é valorizado, considerado superior ao trabalho das mulheres.”</b></h3>
<p style="text-align: right;"><i><span style="font-weight: 400;">Helena Hirata, filósofa brasileira, em entrevista para </span></i><a href="https://www.dmtemdebate.com.br/mulheres-trabalho-e-movimento-entrevista-com-helena-hirata/" target="_blank" rel="noopener"><i><span style="font-weight: 400;">Democracia e Mundo do Trabalho</span></i></a></p>
<p><span style="font-weight: 400;"><br />
Há também aquelas também que fazem a escolha de uma carreira sólida, desafiante e que resolvem experimentar a maternidade um pouco mais tarde do que nos habituais 30 anos. A essas mulheres, questiona-se como podem “abrir mão” de uma carreira para ser mãe “tarde”? Em outros casos, mulheres que não estão casadas, e que estão felizes assim, são vistas, então, como aquelas que devem cuidar da família, dos amigos e, claro, ter uma carreira impecável, porque não têm filhos ou marido. Se uma mulher decide empreender, existem certos negócios que são “de mulher” e outros que nem deveriam ser desbravados.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Para muitos pode parecer um “mimimi”, mas já parou para pensar que sociedade por um lado incentiva, fortalece e traz no seu imaginário o “Girl Power”, mas por outro lado, ainda impõe as amarras de estereótipos, como a mulher amélia, ou a mulher fria e ambiciosa que só pensa no trabalho? Ou solteirona que não tem um projeto de vida próprio?</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Ouvir sobre essas angústias me faz perguntar: por que ser mulher implica em fazer uma escolha [teoricamente] simples, fácil e imutável? Mulheres não podem ampliar seus desejos e dimensões? Não podem mudar de ideia, experimentar, gostar, não gostar, reescrever a própria história? </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">É como se houvesse forças que nos dizem “é até aqui que você pode” escolher, viver, explorar. Forças que nos enquadram e limitam a fluidez de nossa existência. No entanto, o que vejo são mulheres buscando o oposto, vejo a mulher contemporânea engajada em experimentar a pluralidade! Nós podemos ser mulheres, mães, esposas, professoras, astronautas, engenheiras, técnicas, e tantas outras formas de ser e existir que não cabem em apenas uma caixinha.</span></p>
<h3 style="text-align: right;"><b>&#8220;Não quero perder a essência. Eu não sou só mãe&#8221;</b></h3>
<p style="text-align: right;"><span style="font-weight: 400;">Ingrid Silva, bailarina, coreógrafa, escritora, em entrevista ao </span><a href="https://www.uol.com.br/universa/noticias/redacao/2021/03/09/entrevista-ingrid-silva-fala-de-gravidez-nascimento-da-filha-bale.htm" target="_blank" rel="noopener"><span style="font-weight: 400;">Universa</span></a></p>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: left;"><span style="font-weight: 400;">Dia desses me deparei com a história da Ingrid, e suas palavras casavam justamente com essas reflexões sobre os dilemas femininos. Ingrid é uma mulher com uma carreira de bailarina internacional e ficou mais conhecida depois de pintar as sapatilhas de uma cor mais próxima a de sua pele, em uma de suas ações contra o racismo. Ela teve sua primeira filha durante a pandemia, e em certo momento, decidiu voltar ao trabalho. Retomar a dança, os seus projetos </span><b>e</b><span style="font-weight: 400;"> ser mãe. Na entrevista, Ingrid reforça que não quer esquecer quem ela é. A dança de somar, não de subtrair.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Também me lembro da então deputada estadual Manuela D&#8217;Ávila amamentando a sua bebê durante um evento no plenário. Depois da foto viralizar, ela declarou: </span><i><span style="font-weight: 400;">“A política é masculina e machista, a política não tem espaço para as mulheres, a política não tem espaço para o que nos diferencia dos homens, a política não tem espaço para a ingenuidade e para a alegria das crianças, não tem espaço para a naturalidade com que conciliamos nosso trabalho e nossas lutas com nossos bebês&#8221;.</span></i><span style="font-weight: 400;"> Entendo Manu e Ingrid como exemplos de </span><b>reivindicação pelo direito de sermos múltiplas e de sermos capazes, não no sentido neoliberal, de que podemos dar conta de múltiplas funções e ainda sorrir no fim do dia. Mas sim no sentido existencial: não precisamos nos confinar a um único papel!</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">É claro que as estruturas sociais precisam mudar para que as mulheres possam viver suas experiências em coexistência. O mercado de trabalho, os espaços de poder, a casa, a família (seja com filhos ou não) devem possibilitar a responsabilidade compartilhada, a equidade de participação, voz e decisões.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Mas é também importante que possamos reconhecer nossas dimensões, nos conectarmos com nossos desejos, escrever novas trilhas e desbravar percursos que nos façam sentir vivas. Assim, acredito que a psicoterapia seja um processo bastante potente para que mulheres (re)encontrem em si mesmas as chaves que destravam portas, janelas, cadeados, num bonito movimento de acolhimento e de elaboração da relação consigo e com o mundo.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Parafraseando Simone de Beauvoir: que a liberdade seja nossa substância para sermos todas as nossas possibilidades. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">E você? Se identifica com essas sensações e sentimentos? Gostaria de pintar diversos coloridos? Me envie uma mensagem e vamos conversar.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Abraços,</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Carol Freire</span></p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Supervisão em Psicologia: A atuação profissional não precisa ser solitária</title>
		<link>https://carolinafreire.com.br/2024/02/16/supervisao-em-psicologia-a-atuacao-profissional-nao-precisa-ser-solitaria/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[carolfreire]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 16 Feb 2024 21:08:52 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Psicoterapia]]></category>
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					<description><![CDATA[Todo sistema de educação é uma maneira política de manter ou de modificar a apropriação dos discursos, com os saberes e os poderes que eles trazem consigo. [Michel Foucault] Alguém observa um casulo, o qual dá sinais de que será rompido em breve. Esse alguém espera ali, na expectativa de que logo vivenciará o deslumbre [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: right;"><b><i>Todo sistema de educação é uma maneira política de manter ou de modificar a apropriação dos discursos, com os saberes e os poderes que eles trazem consigo.</i></b></h3>
<h3 style="text-align: right;"><b>[Michel Foucault]</b></h3>
<p><span style="font-weight: 400;">Alguém observa um casulo, o qual dá sinais de que será rompido em breve. Esse alguém espera ali, na expectativa de que logo vivenciará o deslumbre do primeiro voo de uma borboleta. Mas nada acontece, nada aparentemente acontece por um bom tempo. Bem, guarde essa história para mais tarde, pois ela trará uma reflexão bastante pertinente para o nosso tema de hoje: </span><b>o valor da supervisão em psicologia.</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Escolher a Psicologia como trilha profissional, muitas vezes, parte de um desejo de acolher o outro, de oferecer ajuda ao outro. Uma motivação bastante legítima, claro, e você pode estar se identificando lendo isso aqui. No entanto, quando percorremos a formação, entendemos que exercer a Psicologia é mais árduo do que imaginamos e está longe de ser simples quanto gostaríamos. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Primeiro, porque nos deparamos com diversos questionamentos, angústias, descobertas, encantamentos e desencantos! Segundo, porque, como professora de cursos de Psicologia há 20 anos, enxergo a própria formação, de forma geral, ainda bastante eurocentrada, pragmática, tecnicista, muito pouco reflexiva, investigativa e, especialmente, muito pouco coletiva. Há pouca oportunidade  para se construir, se desconstruir, se construir novamente, em parceria, em conjunto.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Diante de diversos dilemas e atravessamentos que se apresentam a quem decide atuar como psicólogo ou psicóloga, a solidão é um dos fatores que torna tudo mais desafiador. É nesta lacuna que acredito que a supervisão em psicologia se insere, ampliando as possibilidades de continuidade no processo formativo do psicólogo em um espaço de troca, de escuta, de acolhimento ético, circunscrito na sociedade contemporânea e nas demandas que nos chegam diariamente. Acredito que juntos podemos fazer e encontrar mais potências do que na solidão dos nossos consultórios e práticas. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Tenho em Martin-Baró, psicólogo salvadorenho, alguns alicerces para minha prática profissional, dentre eles o de que a psicologia deveria ser uma ferramenta para a conscientização e a mudança social. E isso não se faz sozinho, estudando sozinho, refletindo sozinho, mas no coletivo, em trocas, em questionamentos e escutas com os outros.</span></p>
<h3 style="text-align: right;"><b>“Exigências de perfeição limitam a capacidade do indivíduo de funcionar dentro de si mesmo.”</b></h3>
<h3 style="text-align: right;"><b>[Fritz Perls]</b></h3>
<p><span style="font-weight: 400;">Já escrevi um texto bacana sobre a </span><a href="https://carolinafreire.com.br/2023/11/24/supervisao-em-psicologia-partilha-transformadora-para-o-seu-desenvolvimento-profissiona/" target="_blank" rel="noopener"><span style="font-weight: 400;">supervisão em psicologia</span></a><span style="font-weight: 400;"> e como a vejo, mas aqui vou escolher outros elementos para refletirmos. Essa frase acima é o fio para um dos pontos que gostaria de levantar: vivemos buscando uma prática perfeita, impecável &#8211; as redes sociais, por exemplo, corroboram essa ilusão apontando o tempo todo que existe uma “fórmula mágica” para o sucesso ou para as caixinhas que devemos nos agarrar para não errar nunca. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Uma prática ética, alicerçada nos preceitos técnicos e científicos da profissão são sempre fundamentais, mas precisamos lembrar que somos humanos.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O psicólogo, a psicóloga, precisa, de antemão, se ver como humano e, portanto, passível de mudanças, questionamentos, receios, equívocos. Neste sentido, há algo que sempre gosto de trazer para alunos e alunas e colegas que passam pela minha supervisão, a ideia de que precisamos olhar para dentro, antes de olhar para fora. Se enquanto profissionais devemos apoiar pessoas a descobrirem “a dor e a delícia de ser o que é”, devemos, primeiro, fazer o mesmo com quem somos. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Afinal, somos instrumentos em constante afinação. Somos seres em movimento, e assim, em constante mudança.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Além disso, acredito ser fundamental destacar que não existe apenas uma Psicologia, mas sim, Psicologias, no plural. </span><i><span style="font-weight: 400;">(Fica a dica para a leitura do texto da Ana Bock. Veja nas referências deste artigo os detalhes).</span></i><span style="font-weight: 400;"> Existem várias epistemologias psicológicas, como o behaviorismo, a psicanálise, o humanismo, a fenomenologia sócio-histórica… Assim, quando se fala em “psicologia baseada em evidências” é importante se questionar sobre qual psicologia estamos falando e também, a partir dessa pluralidade, compreender que há diferentes caminhos e possibilidades de interpretação. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Trago essa reflexão aqui, pois isso tem sido um chamariz para uma prática profissional tida como perfeita, neutra, imparcial, mas, como dizia o querido Florestan Fernandes </span><i><span style="font-weight: 400;">“O cientista pode e deve ser objetivo, neutro, nunca”. </span></i><span style="font-weight: 400;">A prática da ciência psicológica deve buscar parâmetros éticos, técnicos e científicos, mas nunca assépticos e neutros.</span><span style="font-weight: 400;">Toda intervenção psicológica científica deve seguir os rigores da ciência, uma ontologia, uma epistemologia e uma metodologia reconhecidos pela comunidade científica e, no caso do Brasil, validado pelo </span><a href="https://site.cfp.org.br/" target="_blank" rel="noopener"><span style="font-weight: 400;">Conselho Federal de Psicologia</span></a><span style="font-weight: 400;">. É para essa prática comprometida com um fazer científico e ético, e também conectado às complexidades históricas, sociais e econômicas e culturais, que convido a pensar sobre a importância da supervisão em psicologia como oportunidade de construção ampliada, potencializada e fortalecida.</span></p>
<h3 style="text-align: right;"><b>“Ser empático é ver o mundo com os olhos do outro e não ver o nosso mundo refletido nos olhos dele.”</b></h3>
<h3 style="text-align: right;"><b>[Carl Rogers]</b></h3>
<p><span style="font-weight: 400;">Desde o meu início na Psicologia, minhas experiências foram coletivas e compartilhadas com supervisores e professores dispostos e disponíveis para discutir a minha prática de forma ética, social e cuidadosa, me apoiando para me encontrar como Carol Freire psicóloga &#8211; e não como réplica deles. Infelizmente, muitos de nós psicólogos tivemos ao longo da nossa formação professores ou aprendemos nas nossas relações com o mundo que precisamos copiar nossos mestres, se quisermos conquistar respeito e valorização. Somos pouco encorajados e estimulados a desenvolver e a descobrir o nosso próprio olhar, as nossas próprias indagações, nossas forças singulares. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Desse modo, é muito interessante destacar a importância da supervisão em psicologia como um espaço colaborativo e enriquecedor para o desenvolvimento profissional, processo no qual, com experiência e acolhimento, são propostas reflexões sobre uma práxis crítica, uma postura investigativa e o exercício do pensamento crítico e propositivo, contribuindo significativamente para o crescimento do profissional na busca do colorido no seu fazer.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Para esclarecer esses pontos, trago a seguir mais detalhes sobre do que tratam, um a um dos tópicos que comentei. Siga comigo.</span></p>
<p><b>Práxis Crítica:</b><span style="font-weight: 400;"> A práxis crítica envolve a integração entre teoria e prática, levando à reflexão sobre a ação e à transformação da realidade. A supervisão que encoraja a práxis crítica incentiva o psicólogo a questionar suas abordagens, a considerar contextos sociais e culturais, e a buscar constantemente maneiras de aprimorar sua intervenção.</span></p>
<p><b>Postura Investigativa: </b><span style="font-weight: 400;">Uma postura investigativa implica uma abordagem curiosa e científica em relação ao trabalho. A supervisão pode estimular a busca por evidências, a análise de resultados e a exploração de novas abordagens ou métodos de intervenção. Isso permite um aprimoramento contínuo e uma adaptação às necessidades em constante mudança.</span></p>
<p><b>Pensamento Crítico e Propositivo:</b><span style="font-weight: 400;"> O pensamento crítico implica em analisar, questionar e avaliar constantemente o próprio trabalho. Ao mesmo tempo, o pensamento propositivo envolve a capacidade de gerar soluções e propostas construtivas. A supervisão que encoraja essas duas dimensões promove a habilidade profissional em enfrentar desafios de maneira construtiva.</span></p>
<p><b>Ética: </b><span style="font-weight: 400;">A ética, como eu trabalho, para além do cumprimento das indicações para o exercício da profissão, indicados pelo Conselho Federal de Psicologia, é destacada por pensadores como Hannah Arendt e Leonardo Boff, que são alicerces fundamentais na minha prática profissional. A supervisão pode ser um espaço para discutir dilemas éticos, dilemas morais e tomar decisões informadas, contribuindo para uma prática mais responsável e consciente.</span></p>
<p><b>Espaço Educacional:</b><span style="font-weight: 400;"> Por ser uma estudiosa e apaixonada pelos preceitos difundidos por Paulo Freire, destaco a importância de tornar o espaço educacional um local de aprendizado, questionamento e desenvolvimento mútuo. A supervisão pode ser vista como uma forma de educação continuada, na qual tanto a pessoa supervisora quanto e o ou a profissional em supervisão aprendem e crescem em conjunto. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Ao integrar esses elementos na supervisão em Psicologia, cria-se um ambiente que promove não apenas a eficácia clínica, mas também o engajamento ético, a consciência crítica e o desenvolvimento profissional sustentável. Essa abordagem colaborativa e reflexiva, certamente, enriquece a prática profissional e contribui para uma atuação mais significativa e contextualizada.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Lembra-se da história do começo deste artigo? Pois bem, voltamos a ela. A expectativa de se deslumbrar com o primeiro voo da borboleta fez com que aquele alguém decidisse acelerar o processo, aquecendo o casulo com o hálito. A borboleta, então, saiu, mas suas asas não estavam fortes o suficiente para encarar o voo e ela morreu logo depois. A história é do escritor grego Nikos Kazantzakis, e se chama “Consciência da Vida”. Podemos, desta breve fábula, compreender que cada pessoa tem seu processo, seu tempo interno, seu ritmo &#8211; e assim é também para se encontrar e se reencontrar </span><i><span style="font-weight: 400;">(por que  não?)</span></i><span style="font-weight: 400;"> na prática da Psicologia. A supervisão em Psicologia não tem o papel de interferir, nem acelerar o processo, pelo contrário, tem o objetivo de permitir que o processo se desenvolva na singularidade de cada profissional, trazendo reflexões e trocas capazes de fortalecer corpo e asas, sempre que necessário.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Afinal, passaremos algumas vezes pela fase lagarta, pela fase do casulo e pela fase da borboleta ao longo da carreira. E é muito mais encorajador quando não passamos por elas sozinhos.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Se você quer conversar sobre supervisão em psicologia, </span><a href="https://api.whatsapp.com/send?phone=5519981226856" target="_blank" rel="noopener"><span style="font-weight: 400;">me chame aqui</span></a><span style="font-weight: 400;"> e vamos seguir esse papo, a partir das sua vivência. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Abraços!</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Carol Freire</span></p>
<p>&nbsp;</p>
<h5><strong>Referências:</strong></h5>
<p><a href="https://www.scielo.br/j/pusp/a/4BGcxDvBV8Rt76hvFbqJ3PF/?lang=pt" target="_blank" rel="noopener"><span style="font-weight: 400;">Construção de significados e ambiguidades na supervisão de estágio em psicologia</span></a></p>
<p><a href="https://www.scielo.br/j/pusp/a/4BGcxDvBV8Rt76hvFbqJ3PF/?lang=pt" target="_blank" rel="noopener"><span style="font-weight: 400;">https://search.scielo.org/?q=supervis%C3%A3o+em+psicologia&amp;lang=pt&amp;filter%5Bin%5D%5B%5D=scl</span></a></p>
<p><span style="font-weight: 400;">BOCK, Ana Mercês Bahia; FURTADO, Odair; TEIXEIRA, Maria de Lourdes Trassi. Psicologias: uma introdução ao estudo de psicologia. 13. ed. reform. e ampl. São Paulo: Saraiva, 2004</span></p>
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