Quando a infância vira conteúdo: o que precisamos pensar antes de postar

“Será que eu
Canto bem pra
Você
O que será que tu
Ouves de mim?”

[Palavra Cantada]

Essas palavras pousam como fios delicados que atravessam a infância: pergunta, dúvida, curiosidade. São notas soltas que nos lembram do cuidado necessário para ouvir e ser ouvido, para existir sem plateia e ainda assim se sentir inteiro.

Hoje, diante do mar de telas e mídias sociais, cada gesto, cada riso, cada desenho das crianças se transforma em registro, em conteúdo, em reflexo para o outro. E como nas perguntas da canção, surge a dúvida: Será que estou sendo visto da forma que quero? Será que minha história é minha, ou já pertence ao mundo?

É nesse espaço de pergunta, nesse fio que puxa o outro, que começamos a costurar o bordado da infância: pontos que são sentidos antes de serem mostrados, memórias que florescem no silêncio, gestos que não precisam de curtidas para existir.

Este texto nasce de um pedido — o pedido das famílias que acompanho no consultório, das pessoas que encontro nos corredores da vida e nos cantos da internet. Depois de escrever sobre inteligência artificial e psicologia, chegaram perguntas, inquietações: “E as crianças? E os adolescentes? Como fica a infância diante destas exposições?”

Não se trata apenas de quando e onde as crianças postam, mas — e talvez mais fundo — de quando os adultos o fazem: na gracinha que parece inocente, no deboche que fere, na vitrine da exposição, no gesto de partilhar ou até no cálculo da monetização. Porque, no fim, o que se publica não é só imagem: é infância que se borda, memória que se expõe, vida que se transforma — em mercadoria ou em afeto.

Aceitei o desafio de bordar esse tema. Sem apertar demais os nós — para não sufocar as famílias — mas também sem deixá-los frouxos — para não fragilizar a rede de proteção de direitos. Vem seguir o fio comigo.


Mudanças nas formas de experiência da infância

“Uma criança que cria vínculo com a cultura
acessa uma parte invisível do mundo. 

E o traz para dentro de si.”[Héli Ziskind]


A infância contemporânea, tantas vezes, parece não caber em si mesma. Tudo chega pronto, embalado com manual de instruções: brinquedos que ensinam como brincar, festas que repetem roteiros ensaiados, aplicativos que calculam risadas e passos. 

O tempo livre — esse chão fértil para errar, se perder, se distrair bonito — vai se encolhendo, costurado em linhas apertadas, sem espaço para o rabisco solto. Cada gesto precisa ter serventia: render dinheiro, ganhar status, prometer um futuro. E assim, o ócio e a liberdade se perdem num emaranhado de fios e nós.

Por isso, trago para meus atendimentos infantis feltros, linhas, tecidos, agulhas, argila, tintas… Um cuidado com o tempo e o gesto, onde as crianças podem aprender a pensar, criar e sentir de forma própria. Um espaço para que se apropriem de suas experiências, únicas, sem repetir modelos pré-prontos ou “certos”, podendo errar e experimentar. Afinal, meu camelo pode ser azul, a sua girafa pode ter cara de porco — e está tudo certo! Cada um é cada um, e cada um borda a sua própria história com as meadas e agulhas que tem!

Pesquisadores do Portal Lunetas lembram que a vida das crianças já nasce atravessada por agendas, telas e produtos que moldam gostos, rotinas e afetos. É como se cada ponto do bordado infantil fosse supervisionado, catalogado e publicado antes mesmo de existir inteiro no tecido da memória. O Childhood Brasil, Instituto Alana e o movimento Criança e Consumo reforçam: a exposição a publicidades e vitrines digitais não só cria desejos, mas ensina a criança a se olhar apenas pelo reflexo do outro. Cada encontro, cada presente, cada vídeo precisa ser validado, aprovado, exibido. O espontâneo, coração do brincar inventivo, fica em segundo plano, não há espaços para os avessos.

E não são apenas influenciadores mirins ou adultos. Vejo crianças que chegam a museus, teatros ou parques já com câmera na mão. O olhar não pousa no quadro, no palco, no balanço do vento. Pousa na tela que captura para o depois. Registrar com o corpo, com os cinco sentidos, com a memória viva, vai sendo trocado pelo clique e pelo like.

No consultório, pergunto a uma menina sobre o fim de semana:

— Como foi o circo?

— Não sei… mas minha mãe tem a foto.

— E você se lembra do que sentiu? Do que mais gostou?

— Não… você não viu no Instagram da minha mãe?

 

E é assim que se torna cada vez mais difícil permanecer inteira na experiência presente, construir percepção de mundo com corpo, alma e imaginação — sem o espelho constante do outro.

Dentro de casa, a rotina também se estreita, pois cada atividade vira registro, cada instante parece precisar de plateia, tudo precisa ser instagramável. Pesquisas em comunicação mostram que a memória da infância se mistura ao que foi documentado — nem sempre ao que foi vivido. O olhar externo molda como a criança lembra e sente sua própria história.

A psicologia do desenvolvimento já nos borda esse alerta há tempos. Wallon lembra que o “eu” nasce no reflexo do outro, no espelho vivo das relações. Piaget diz que a autonomia só floresce no espaço do erro, do ensaio sem testemunhas permanentes. Vygotski mostra que é na brincadeira simbólica e livre, sem plateia, que a criança ensaia futuros e dá sentido ao presente. Se a câmera nunca se apaga, o gesto deixa de florescer do vivido, corre o risco de não vir da alma, mas da moldura invisível da plateia que o aguarda.

Há ainda um fio delicado e pouco comentado: o consentimento. Crianças não têm noção do alcance nem da permanência das imagens. No mundo digital, nada se apaga de fato — apenas se transforma, se rearranja, se aloja em bancos de dados que o confirmam! O que hoje parece leve pode amanhã pesar sobre a memória, o corpo, a alma. Memórias se confundem com registros, e a espontaneidade se dobra em performance.

Por isso, o bordado da infância pede também o seu avesso: espaços sem registro, tempos sem roteiro, brincadeiras sem likes, mas simplesmente vividas. Momentos de errar sem correção, imaginar sem manual, existir sem audiência. Pequenos gestos que devolvem às crianças o direito de costurar sua própria trama, de habitar o presente, longe da vitrine e mais perto da vida.


Quando o bordado da infância se tensiona

“Numa folha qualquer eu desenho um sol amarelo
E com cinco ou seis retas é fácil fazer um castelo
Corro o lápis em torno da mão e me dou uma luva
E se faço chover, com dois riscos tenho um guarda-chuva…” 

[Toquinho]


Essa música sempre me marcou… lembro de mim, criança, cantando e desenhando, quando miha professora do 5º anos avaliou minha interpretação de texto dizendo estar encantada com minha imaginação e compreensão. Naquela simplicidade de traços e cores, a infância se dobrava sobre si mesma: livre, inventiva, inteira. Cada ponto desenhado era um mundo que cabia na minha mão, um instante que existia só para ser sentido.

Hoje, se olhamos para a infância das crianças ao nosso redor, percebemos que nem todo gesto mantém essa intimidade. Há olhos externos que assistem, telas que registram, memórias que já não pertencem apenas a quem as viveu. O instante, antes secreto e pleno, corre o risco de se transformar em conteúdo, mediado pelo olhar alheio.

Em 1998, assistimos O Show de Truman e pensamos: “isso é absurdo”. Naquele tempo, parecia uma distopia — um homem vivendo sob olhos alheios, sem escolha, sem segredo. Hoje, muitas crianças habitam uma versão digital desse enredo: cada sorriso, cada travessura, cada desenho, cada dente de leite circula em postagens, histórias, murais de escola e grupos de WhatsApp. O que era vida vira conteúdo, e o ar que deveriam respirar se transforma em câmera, tela, olhar que pesa.

Mesmo sem intenção negativa, essa exposição deixa marcas. Vulnerabilidade emocional, social e física se entrelaçam nos fios invisíveis das redes, revelando o avesso de histórias que ainda estão sendo bordadas. Guardar para a família não é o mesmo que lançar ao mundo inteiro. A memória, quando mediada pela exposição constante, passa a se confundir com o registro — e a criança aprende a se reconhecer apenas pelo olhar do outro, não pelo próprio sentir: o calor da mão na argila, o cheiro do lápis de cor, o vento nos cabelos, o balanço do corpo no quintal.

O Conselho Federal de Psicologia e o ECA Digital lembram: infância não é conteúdo. A publicização sem critério ameaça a construção da memória íntima, do senso de identidade e de pertença. Sem parâmetros claros oferecidos pelos adultos, a criança perde a referência: onde termina o privado e começa a vitrine?

Por isso, é urgente devolver à infância o direito à intimidade, ao silêncio, à privacidade — momentos que não serão fotografados, curtidos e comentados por olhos que não lhe pertencem. Que fiquem apenas no calor da experiência, no cheiro da tinta fresca, no peso macio da argila, no toque áspero da lã, no pulsar das mãos que moldam, riscam e inventam. Porque o bordado da infância só se sustenta quando também tem avesso — fios que se cruzam, escondem e revelam, permitindo que a trama da vida cresça inteira, delicada e íntima, do jeito que só uma criança pode costurar.

Às vezes, atendo crianças que chegam com um peso invisível: o medo de parecerem ridículas nas danças da escola, nas aulas de esporte ou nas atividades artísticas. “Não sei fazer, Carol”, sussurram. E ali está mais que uma frase — é o eco de um julgamento já sentido antes mesmo de tentar.

No consultório, não tiro fotos dos seus feitos. Alguns, curiosos, perguntam: “Você vai postar? Posta, vai!”. É aí que aproveito o momento: para falar sobre intimidade, cuidado e auto-respeito. Para bordar com elas que algumas conquistas não precisam de platéia, que certos gestos existem apenas para serem sentidos, vividos, saboreados pelo próprio corpo e pelo próprio coração. Que é possível errar, se perder, inventar — sem que ninguém comente, curta ou registre.

É nesse espaço sem câmera, sem julgamento, que a criança reaprende a confiar em si mesma: a dançar só pelo prazer de dançar, a pintar apenas pelo gosto de colorir. Esse é o avesso do bordado da infância: delicado, silencioso, íntimo, mas essencial para que a trama da vida cresça inteira, firme e cheia de cor.


Fios que se embaraçam

“E foi aí que
todo mundo descobriu
que ele
não tinha sido
um
menino
maluquinho
ele tinha sido era um menino feliz!”

[ Ziraldo – O Menino Maluquinho]


O bordado da infância também conhece seus embaraços. Quando cada gesto é exposto antes de amadurecer, os pontos se cruzam em desalinho. A pressa de mostrar sufoca o tempo de sentir, e a criança, em vez de tecer sua própria trama, tenta apenas não se perder entre fios que não são dela. Nem todo fio segue liso: há linhas que se enroscam, criam nós e pedem mais cuidado. Assim acontece quando a intimidade vira vitrine — o tecido delicado da experiência se desgasta, e aquilo que deveria ser segredo, silêncio e invenção corre o risco de se desfazer antes mesmo de existir por inteiro.

As crianças que chegam, junto de suas famílias, trazem no corpo e na fala os fios que se embaraçam nesse jogo entre direito e avesso da vida exposta. São histórias que revelam os efeitos emocionais, sociais e educacionais dessa autoexposição — e, sobretudo, dessa heteroexposição, quando o outro escolhe mostrar antes mesmo que a própria criança saiba o que quer guardar ou partilhar. Nos pontos mal costurados dessa vitrine, aparecem ansiedades, inseguranças, silêncios e medos; marcas que denunciam o quanto o bordado da infância pode se desgastar quando a trama não respeita o tempo de ser vivida.

Evoco aqui, como quem puxa delicadamente uma linha para ver onde ela se prende, alguns impactos dessas exposições:


Emocional / psicológico

Quando os fios da emoção são revelados cedo demais, eles se embaraçam. A criança passa a medir-se pelo reflexo digital: nasce a ansiedade, cresce a insegurança, e a autoestima se fragiliza diante de um ideal que não lhe pertence. De sujeito que sente e descobre, torna-se objeto de visualização — moldada pelo olhar do outro, e não pelo calor de sua própria experiência.

A imagem que circula é parcial, muitas vezes idealizada, e pode rasgar o tecido interno do sentir. Surge o descompasso: a narrativa publicada não costura com a vivida. E nessa fenda, abrem-se riscos de violência simbólica — comentários maldosos, bullying digital — que deixam cicatrizes invisíveis, mas profundas, nos tecidos ainda frágeis da infância.

 

Social

Entre pares, a trama também se modifica. Quem não aparece pode sentir-se invisível, como ponto esquecido no bordado coletivo. Já quem “existe para os outros” corre o risco de ser aprisionado pelas expectativas: sempre visto, sempre comentado, sempre exigido. Entre o excesso de visibilidade e a ausência dela, desfaz-se a liberdade do simples ser.

 

Educacional

O excesso de telas e registros desfaz o fio da atenção: a concentração se dispersa, o sono se fragmenta, e o pensamento reflexivo se dissolve em curtidas e notificações. A escola — que deveria ser um espaço de descoberta, de ensaio, de invenção — passa a ser atravessada pela dependência constante da aprovação digital. O bordado do aprender, que pede paciência, silêncio e repetição, dá lugar a pontos apressados, desconexos, frágeis que mal sustentam o tecido do conhecimento.

 

Bordando limites, cuidado e proteção

“Toda criança do mundo deve ser bem protegida
contra os rigores do tempo Contra os rigores da vida.” 

[Ruth Rocha]


Os pais e responsáveis são como mãos que seguram fios delicados, ensinando a criança a tecer seu próprio bordado sem que a trama se rasgue ou se perca. Proteger a privacidade dos pequenos não é apenas uma regra — é gesto de vínculo, cuidado que aquece o coração. 

Ensinar sobre limites e respeito a si mesmo é oferecer agulha e linha com gentileza: mostrar que se pode brincar, experimentar, errar, criar — mas sem que outros rasguem ou invadam esse espaço. Que a vida pode ser vivida antes de ser registrada, sentida antes de ser fotografada. O ECA Digital e o Protocolo Eu Te Vejo são fios de proteção que ajudam os adultos a segurar essa trama com segurança. Eles lembram que a infância não deve ser conteúdo, que o direito ao segredo, ao silêncio e à intimidade deve ser respeitado, e que cada imagem, cada postagem, pode ter impacto no presente e no futuro da criança.

Considerar os efeitos de longo prazo na autoestima, na autonomia e na segurança emocional é mais que prudência: é bordar com cuidado para que a criança cresça inteira, confiante em si mesma, sabendo que tem direito à sua própria história, à sua própria memória, ao seu próprio tempo.


Caminhos possíveis


Não se trata de recusar a exposição, mas de perguntar: como transformá-la em gesto cuidadoso, sem ferir o que ainda é semente? Não se trata de apagar os fios que já estão lançados na trama, mas de pensar: que bordado estamos deixando se formar?

Alguns caminhos podem ser tecidos:

  • Trocar o excesso de flashes pelo calor de um encontro real: menos registro, mais presença.
  • Inventar refúgios de silêncio — espaços onde nada precisa ser mostrado para existir.
  • Deixar que a criança seja autora do seu próprio aparecer: perguntar, escutar, aceitar o “não”.
  • Cuidar da intimidade como quem guarda um tesouro: ensinar que o valor não depende de curtidas.
  • Honrar também o avesso: os instantes invisíveis, que ganham sentido apenas dentro do círculo estreito da vida compartilhada.

Assim, abrimos espaço para que a infância respire, dance e se invente em liberdade — sem ser capturada pela pressa das telas.


Para não esquecer


O bordado da infância não se mede pelo que aparece, mas pelos pontos miúdos, quase invisíveis, que sustentam o desenho. Nos silêncios compartilhados, nas risadas que não viram registro, nas histórias inventadas sem testemunha. Memórias que florescem no segredo, longe da vitrine. Experiências que pedem tempo para amadurecer antes de se mostrar. Afetos que só crescem guardados no íntimo, como sementes que precisam de sombra para brotar.

Que possamos, num pacto coletivo, devolver às crianças o direito de bordar suas próprias histórias — com fios soltos, nós respeitados e cores que só elas sabem escolher. Que cada instante seja delas, íntimo, livre e precioso.


Referências:


BRASIL. Lei nº 15.211, de 17 de setembro de 2025. Dispõe sobre a proteção de crianças e adolescentes em ambientes digitais (Estatuto Digital da Criança e do Adolescente). Disponível em: Planalto. Acesso em: 29 set. 2025.

CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA. Nota Técnica nº 1/2022/SOE/PLENÁRIA. Nota Técnica sobre Uso Profissional das Redes Sociais: Publicidade e Cuidados Éticos. Disponível em: CFP. Acesso em: 29 set. 2025.

CHILDHOOD BRASIL. Criança e Consumo. Disponível em: https://www.childhood.org.br. Acesso em: 29 set. 2025.

PEREIRA, Lenilla Carolina da Silva; SANTOS, Isabela Vieira Pereira; NASCIMENTO PEREIRA, Luiza; PFELSTICKER, Francis Jardim. O impacto das mídias digitais em crianças e adolescentes: revisão de literatura. Revista Brasileira de Psicologia, v. 6, n. 1, p. 1773-1785, jan. 2024. DOI: 10.36557/2674-8169.2024v6n1p1773-1785. Disponível em: . Acesso em: 29 set. 2025.

PORTAL LUNETAS. Pesquisas sobre infância, educação e cultura digital. Disponível em: https://www.lunetas.com.br. Acesso em: 29 set. 2025.

WALLON, H. A evolução psicológica da criança. São Paulo: Martins Fontes, 1998.

PIAGET, J. A formação do símbolo na criança: imitação, jogo e sonho, imagem e representação. Rio de Janeiro: Zahar, 1979.

VYGOTSKI, L. S. A formação social da mente. São Paulo: Martins Fontes, 1991.