“Não vá se adaptar… Não precisa carimbar!
Plunct, plact, zum! Não vai a lugar nenhum.”
Assim Raul Seixas cantava com sua poesia rebelde, anunciando que viver num mundo de carimbos, selos e normas pode ser o fim da nossa viagem mais bonita: ser quem somos. E quando a infância entra na sala do carimbador maluco, não sai ilesa. Sai marcada, selada, patologizada, classificada, rotulada.
Patologizar significa atribuir a um determinado comportamento uma “etiqueta” de doença ou algum tipo de transtorno, quando nem sempre isso é necessário. Vivemos em um mundo em que a linha reta impõe padrões que afunilam, e até mesmo condenam qualquer tipo de curva ou desvio, nos forçando a encontrar uma rota rápida – precisa ser rápido! – para ‘compreender’, corrigir e retomar a pista retilínea. Ufa!
Mas e se o que é interpretado como desvio, na verdade, é comportamento ou atitude que reflete a diversidade da experiência humana, ou ainda uma reação ao modo disfuncional de um certo ambiente?
Como psicóloga com interesse profundo e genuíno pelo desenvolvimento infantil, acompanhando famílias e crianças por mais de 20 anos, venho observando um crescente movimento de patologização da infância. No consultório, tenho recebido pais e mães com dúvidas quanto ao que é do processo “natural” do desenvolvimento dos filhos e aquilo que foge, que escapa pelos dedos. Não querem ser negligentes, mas também não querem ser alarmistas…Percebo como tem sido difícil se equilibrar nessa corda bamba entre o saudável e o esperado, entre o sensível e o problemático.
Atenta a esse movimento, tenho a alegria de contar com colegas cientistas que pesquisam e discutem essa pauta ao meu lado: Flávia Albuquerque (@despatologiza), Ligia Moreiras (@cientistaqueviroumae), Fórum sobre Medicalização da Educação e da Sociedade (@forumsobremedicalização), Giuliana Mordente (@andancascriativas), entre outros. Somos muitos estudiosos do desenvolvimento humano, da cultura, da educação e da psicologia que tratamos o tema com seriedade — e hoje partilho um pouco desse conteúdo com você. Vem comigo?
“O olho vê, a lembrança revê, e a imaginação transvê.
É preciso transver o mundo.”
Manoel de Barros
Dificuldades de aprendizagem, agitação, introspecção, falta de concentração em determinadas atividades… Esses comportamentos costumam acender sinais de alerta. É fundamental olhá-los com gentileza e cuidado, mas, na pressa por ‘conclusões’, surgem diagnósticos — algumas vezes necessários, mas muitas outras vezes apressados, desconectados do mundo da criança, de suas dores e das perguntas que ninguém ousa fazer.
A infância, quando passa pelo guichê dos diagnósticos, já não dança mais leve. Sai com um peso no peito. Um nome estranho colado na testa. São rótulos que se grudam às crianças — TDAH, TOD, TEA, altas habilidades, transtorno de linguagem — e chegam antes mesmo que elas tenham tempo de se apresentar. Tudo isso sem considerar que, hoje, muitas não encontram tempo nem espaço para experimentar, se lambuzar, se sujar, já que tudo vem pré-pronto: apostilas, desenhos dentro da linha, técnicas, uma educação que separa corpo, mente e alma. Quando as etiquetas chegam, são difíceis de tirar e acabam escondendo a história, o contexto, o mundo que cada criança carrega.
Mas e se, em vez de carimbos, a gente bordasse as histórias e os contextos?
Acho curioso como artigos e estudos se debruçam sobre as ‘falhas’ e ‘desvios’, enquanto há pouco esforço em abordar a ‘infância natural’. Ou seja, em tratar e esclarecer o que acontece em termos biológicos, cognitivos e emocionais em cada idade, dedicando um olhar atento ao próprio fluxo do desenvolvimento.
Para isso, precisamos transver a infância. Não como ausência, mas potência, como aquilo que já é e seus desejos e possibilidades de vir-a-ser, sendo, no gerúndio mesmo! Potência de brincar mesmo quando o tempo e o espaço parecem escassos. Potência para poetizar a própria vida, mesmo em territórios hostis. Nos laudos que se apressam, a infância se estreita. Nas brincadeiras, a infância se expande. No olhar curioso, as respostas se revelam.
Beatriz Cytrynowicz e Ana Feijoó, psicólogas fenomenológicas, nos convidam a esse exercício de transvisão, a olhar a criança para além da clínica, para além dos diagnósticos, nos lembrando que a linguagem da infância é gestual, simbólica, resistente — e que o sofrimento não nasce no cérebro, nasce no mundo, nas relações com o mundo. E muitas vezes, ao invés de abrir caminhos, o diagnóstico fecha portas, cala perguntas e esconde o grito.
Elas nos chamam a escutar a infância com ouvidos que querem entender, não apenas julgar. Nos provocam a perceber que, quando nomeamos comportamentos como “sintomas”, podemos estar confundindo uma resposta ao sofrimento com uma falha da criança, perdemos o sentido e ficamos apenas com a forma.
Diversas pesquisas nos mostram que há infâncias que se erguem em territórios violentos, outras que se dobram em rotinas de trabalho, outras ainda que encontram na escola um respiro — e todas elas são infâncias legítimas, singulares, plurais. É nesse entrelace que podemos ver: cada criança é um bordado de fios múltiplos, costurados pelo contexto, pelas relações e pelo tempo.
E cabe a nós, adultos, psicólogos, educadores, cuidadores, não cortar esses fios, mas sustentá-los. Escutar a infância com ouvidos que querem entender, não apenas julgar. Cuidar da infância não é medir sua falta, mas reconhecer sua força.
Então, no lugar do laudo vazio, o afeto. No lugar da norma, o cuidado. No lugar do silêncio, a escuta. Cada criança é um poema em construção. Diagnóstico — quando necessário — é lente de aumento, não selo de destino.
Não se trata de negar o sofrimento — que é real, profundo — mas de perguntar: sofrimento de quem? Por quê? E com que cuidado respondemos a ele?
“Use a imaginação,
Pra ver que o mundo é bem melhor
Do que o que se vê na televisão…”
Zé Vasconcelos e a Turma do Pirlimpimpim
É isso que o Fórum sobre Medicalização da Educação e da Sociedade denuncia: estamos transformando a infância em problema a ser corrigido, esquecendo que a criança também denuncia. Denuncia uma escola opressora, uma casa violenta, um corpo que não aguenta calar.
Numa realidade desigual, onde famílias vivem o desemprego, onde a moradia é um luxo, o cuidado é precário e a educação falha, rotular virou um jeito de não escutar. É o que chamamos de medicalização: o processo de transformar questões sociais, pedagógicas ou culturais em problemas médicos individuais e puramente orgânicos. Assim, comportamentos, dificuldades escolares ou modos de ser deixam de ser compreendidos à luz do contexto e dos processos psicológicos próprios do desenvolvimento, para serem enquadrados como doenças, passíveis de diagnóstico e tratamento.
Para o Fórum sobre Medicalização da Educação e da Sociedade e o movimento Despatologiza, isso significa três coisas:
- Silenciar causas estruturais: ao diagnosticar a criança sem olhar para a escola, a comunidade, a violência e a pobreza, apagamos as verdadeiras origens do sofrimento.
- Reforçar desigualdades: crianças negras, periféricas e pobres recebem mais diagnósticos e mais cedo, transformando a exclusão em “falha individual”.
- Reduzir a complexidade humana: medir o desenvolvimento infantil com régua biomédica é ignorar a riqueza de tempos e formas singulares de crescer.
- Medicalizar a infância é silenciar questões sociais, econômicas, políticas e afetivas. Crianças negras, periféricas, pobres, violentadas pelo racismo estrutural e pela ausência do Estado são chamadas de “difíceis”, “desafiadoras”, “atípicas”. São afastadas do brincar para serem ajustadas.
Por isso, para esses movimentos, medicalizar é também um ato político: uma escolha que adapta a criança ao mundo, em vez de transformar o mundo para acolher a criança.
“As coisas que não têm nome
são mais pronunciadas por crianças.”
Manoel de Barros
Por outro lado, o cuidado verdadeiro — aquele que despatologiza — parte do encontro e do afeto. Como lembra Aparecida Moisés, médica pediatra e estudiosa da discussão da patologização da saúde e da vida, o desenvolvimento humano é um campo vivo, em movimento, que não cabe em régua, nem cronograma, é atravessado por tempos e ritmos próprios. Rossano Cabral de Lima, mestre e doutor em saúde coletiva (IMS/Uerj), reforça: a escola não pode ser fábrica de diagnósticos, mas espaço de vínculo, escuta e invenção. Criança inquieta, que questiona e sonha alto, talvez seja só… livre.
Num mundo neoliberal, a liberdade tem preço. Diante da exigência por eficiência e por padronização, a infância livre é ameaça, bagunça, desvio — e como toda ameaça, deve ser neutralizada: com laudo, remédio, silêncio.
Por isso, precisamos bordar, usar a imaginação, tecer novos sentidos. Bordar é o contrário de carimbar. É lento, singular, delicado. Cada ponto é único, cada linha tem sua cor. O bordado precisa de tempo para que a figura surja. E no bordado, os nós e enredos fazem parte da beleza.
A infância pede esse avesso: escuta, tempo, chão, vento, nome, abraço. Pede que os adultos se perguntem: o que me incomoda nessa criança que se recusa a se adaptar? Que denúncia ela traz no que chamamos de “mau comportamento”? Que relações estão sendo reveladas? Porque muitas vezes, “transtorno” é a forma que a criança encontrou de dizer que algo não vai bem. Não nela, no mundo.
É preciso coragem para escutar e despatologizar. Coragem que está nas escolas, nas famílias, nas políticas públicas e nos movimentos como o Despatologiza, que lembra que cuidar da infância é tarefa política, amorosa e coletiva. Saúde mental infantil passa por moradia, alimentação, racismo, gênero, trabalho dos pais, tempo para brincar, direitos respeitados.
“Use a imaginação,
Pra fazer do mundo um lugar
Onde você possa dançar…”
Zé Vasconcelos e a Turma do Pirlimpimpim
A infância precisa de tempo para ser. Ser é coragem. Coragem para desorganizar a sala de aula, brincar com a regra, perguntar: quem fica de fora? O que a escola não oferece? Que adulto há ao redor dessa criança? Que infância é possível num mundo tão apressado?
Dar nome apressado, dizer “essa criança é assim” antes de perguntar quem ela quer ser, é matar o que ainda pode nascer. Crianças precisam inventar seus nomes, precisamos de mundos que não carimbem, mas que abram espaço para o desenho torto, o ponto fora da linha, a borda inacabada.
Por isso, o Despatologiza propõe: cuidado é construção coletiva. Nenhuma criança se desenvolve sozinha, nenhuma escola ensina sem vínculos, nenhuma clínica funciona sem olhar para o mundo. O laudo vira bordado: linhas soltas, pontos de espera, avessos à mostra. Pois é no avesso que mora a beleza da vida vivida.
E talvez dançar seja mesmo a resposta. Criança inquieta só quer música, menos regra, alguém que diga: você pode ser quem é. Não precisa se adaptar. Pode ser e explorar seu (e)terno vir-a-ser!
Bordar a infância é resistência. É olhar para cada criança como universo possível. É lembrar que toda inquietação pode ser poesia, que todo choro tem história, que toda “dificuldade de aprendizagem” pode ser uma dificuldade do mundo de ensinar com amor.
“Tenho abundância de ser feliz por nada.”
Manoel de Barros
Que a infância siga nos ensinando a ser feliz por nada — e por tudo. E que a gente, em vez de carimbar, aprenda a bordar. Seguimos aqui por uma psicologia mais sensível ao desenvolvimento humano em contexto.
Esse texto trouxe reflexões para você, me diz? Se você também acredita na liberdade de ser quem se é, na infância e em qualquer fase da vida, conte comigo para acompanhar essa jornada. Mande uma mensagem e vamos conversar!
Abraços,
Carol Freire


