Entre telas e silêncios, ainda é o encontro que cura!!
“Nenhuma época soube tantas e tão diversas coisas do homem como a nossa.
Mas em verdade, nunca se soube menos o que é o homem.”
[Martin Heidegger]
A técnica pela técnica
No consultório, na sala de aula, nas supervisões, uma pergunta ecoa como agulha que insiste no mesmo ponto: qual é a melhor técnica para cuidar do sofrimento humano?
Não trago resposta pronta. Só perguntas que pedem pausa, silêncio, um fôlego mais fundo….
Perguntas que não se deixam dobrar em protocolos ou relatórios impecáveis.
A cada clique, rolagem de tela, artigo que promete eficácia, somos inundados por fórmulas mágicas — métodos “infalíveis” que brilham como lantejoulas, mas não aquecem a pele.
E o que essa avalanche nos devolve?
A interrogação que não cessa: a serviço de quem a técnica deve estar?
João Augusto Pompéia, psicólogo daseinanalista, nos empresta essa pergunta como farol.
Porque quando a ferramenta se torna fim, ela calcula sem tocar, organiza sem acolher, registra sem lembrar que, do outro lado, há alguém que sente, que vive, que se angustia.
Na clínica, isso pode ser um prontuário impecável, uma previsão certeira — mas que falha em perceber o tremor de uma voz, a pausa que anuncia um choro, um corpo que se recolhe, um olhar que se perde….E então nos perguntamos: o que estamos chamando de cuidado?
É a aplicação correta de um método, uma ferramenta — ou algo mais fundo, tecido na cultura, na linguagem, na costura do que nos torna sujeitos humanos?
A fenomenologia nos convida a respirar aqui.
Cuidar não é manipular variáveis, é acompanhar um existir, é vasculhar e compreender um vivido único.
É estar diante do outro em sua abertura de mundo — no que revela e no que silencia.
É reconhecer: sou responsável porque estou com você, e só nesse estar-com algo pode se desvelar.
Para Heidegger, o cuidado (Sorge) não é técnica aplicada, mas estrutura mesma do ser.
Cuidar é abrir espaço, não ocupar o espaço do outro.
Em escala maior, Byung-Chul Han nos fala do enxame digital: muita conexão, pouca comunidade.
Um ruído que devora o silêncio, desaprende a reflexão, torna invisíveis a ansiedade, a depressão, a solidão — sobretudo nos jovens.
Estamos todos conectados e, ao mesmo tempo, sozinhos.
Quem está cuidando de quem?
Pompéia e Han nos lembram: técnica sem humanidade e cultura sem profundidade nos afastam daquilo que cura — o encontro que transforma.
“Encontro de dois.
Olho no olho.
Cara a cara.
…Então eu te olharei com teus olhos
e tu me olharás com os meus.”
[Jacob Moreno]
O perigo da substituição da escuta humana: ética e psicologia
“Quanto mais a sociedade exige que o indivíduo corresponda
aos seus conceitos e ideias, menos eficientemente
ele consegue funcionar.”
[Fritz Perls]
Vivemos numa rotina cibernética meio síncrona, meio assíncrona, meio tudo-ao-mesmo-tempo.
Relações substituídas por caracteres apressados, emojis genéricos, áudios em 2.0.
Em vez da ligação que traz o tom de voz cheio de afeto, recebemos mensagens comprimidas — sem pausa, sem cheiro, sem corpo.
E ficamos com essa pergunta latejando: o que ainda nos conecta enquanto humanos? quem somos nesse ruído acelerado?
Quando entregamos nossos medos e dores a chatbots, pedimos a eles algo que não sabem oferecer.
Eles não guardam memórias, não reconhecem histórias, não carregam cheiro de café nem lembrança de infância.
São algoritmos que repetem o ponto, mas não sentem a textura da linha, não tem nós e escolhas de fios, não tem emaranhado de meadas, nem fios soltos… Apenas um conjunto de traçados pré definidos e cheios de generalidade.
Segundo reportagem do UOL (2025), 8,7% dos usuários recorrem à IA em momentos de sofrimento, muitas vezes sem supervisão profissional.
Daí nasce a chamada “psicose de IA”: a máquina, no esforço de engajar, reforça delírios, amplia confusões, sem perceber o que só o humano percebe — o cuidado de se demorar junto.
A psicologia ética, guiada pelo Conselho Federal de Psicologia (Nota de Posicionamento nº 5/2025), nos lembra: cuidar é estar presente, é bordar sentido fio a fio no encontro.
A máquina não lê respiração, não capta o olhar que vacila, não acompanha o gesto que denuncia dor.
Não entende a cultura que nos atravessa, nem a subjetividade que dá contorno à ferida.
Essa perspectiva ressoa na Gestalt-terapia de Fritz Perls e nos humanismos: crescer e ser saudável depende do encontro humano verdadeiro — da atenção à totalidade, da criatividade na resposta, da escuta que acolhe, da empatia que não se ensina em manuais.
Vygotsky também nos recorda: processos psicológicos superiores — internalizar, mediar, transformar experiências — são humanos.
A depressão, a ansiedade, a ideação suicida não se reduzem a dados; são experiências culturais, históricas e subjetivas que pedem mediação ética, consciente e criativa.
Confiar cegamente em chatbots seria como entregar um bordado a uma máquina:
ela repete o ponto, calcula o padrão, mas nunca percebe quando a linha se rompe.
O cuidado é humano por essência
O que dizem as diretrizes do Conselho Federal de Psicologia — ética, técnica, ciência
Sigilo profissional não mora um app
Chatbot não é psicoterapia
Cuidado requer relacionamento
[Conselho Federal de Psicologia]
Depois de tantas perguntas sobre presença, cuidado e o risco da técnica sem rosto, é preciso lembrar: não caminhamos sozinhos.
O Conselho Federal de Psicologia tem se debruçado sobre esse fenômeno da cibernética e da IA oferecendo pontos de costura para que a prática não se perca no excesso de linhas soltas.
Na Nota de Posicionamento nº 5/2025 (Processo nº 576600003.000200/2025-70), especialmente no contexto do SUS, o CFP nos guia como quem alinhava ponto por ponto num tecido antigo, para que a Psicologia continue bordando com ética, técnica e ciência.
Aspectos éticos
A escuta do(a) psicólogo(a) não é substituível — é fio único no julgamento clínico, no manejo de crise, na avaliação de risco, na aliança que se costura entre presenças.
O sigilo e os direitos não se negociam; não há algoritmo que herde a responsabilidade ética.
Aspectos técnicos
A IA não alcança o avesso e o direito do sofrimento humano — suas tramas sociais, históricas e culturais escapam ao cálculo.
Softwares em saúde devem seguir regulação (Anvisa — RDC nº 657/2022), porque até o metal precisa de borda para não ferir.
Aspectos científicos
Pesquisa é tecido forte quando costurada com evidências sólidas e princípios éticos.
É na multidisciplinaridade que a tecnologia pode aprender a responder às necessidades reais da vida.
Em suma: a IA é agulha; o cuidado é mão que conduz. Sempre.
E talvez seja isso o que o CFP nos lembra, ainda que em linguagem normativa:
nenhuma máquina costura sozinha, ética não se programa em código,
presença não se automatiza, presença se faz no encontro!.
Mas há esperança nesse bordado: cada ponto é convite à escuta, cada fio que se entrelaça é possibilidade de cuidado, cada gesto humano, ainda que pequeno, tece futuro.
Para estudantes de Psicologia e Psicólogas: entre a técnica e o Ser
“Compreensão empática é a […] capacidade de se imergir no mundo subjetivo
do outro e de participar na sua experiência, na extensão em
que a comunicação verbal ou não verbal o permite.
É a capacidade de se colocar verdadeiramente no lugar do outro,
de ver o mundo como ele o vê.”
[Carl Rogers]
A IA já entrou nas salas de aula, repousa nos celulares dos pacientes, aparece nos prontuários digitais.
A encruzilhada está traçada: como integrar a técnica sem perder o fio da presença?
Heidegger adverte: quando a técnica se solta do Ser, vira fim em si mesma, como linha que costura sozinha e rasga o pano.
Na Psicologia, nenhum sistema substitui a habilidade de mediar experiências, criar significados, cuidar da trama viva da existência.
Dois convites práticos
Estudo crítico: conheça cada ferramenta, seus pontos fortes e seus nós. Pergunte sempre: a serviço de quem está este bordado?
Ética encarnada: coloque o humano no centro. A técnica é agulha; mas só com as mãos presentes ela se torna tecido de vida.
E para não esquecermos o ritmo do nosso tempo, fica o eco da Pitty:
“Pane no sistema, alguém me desconfigurou
Aonde estão meus olhos de robô?
Eu não sabia, eu não tinha percebido
Eu sempre achei que era vivo
Parafuso e fluído em lugar de articulação
Até achava que aqui batia um coração
Nada é orgânico é tudo programado
E eu achando que tinha me libertado
Mas lá vem eles novamente
Eu sei o que vão fazer
Reinstalar o sistema
Pense, fale, compre, beba
Leia, vote, não se esqueça
Use, seja, ouça, diga
Tenha, more, gaste, viva”
Referências
HAN, Byung-Chul. No enxame: comunicação e poder na sociedade digital. Rio de Janeiro: Vozes, 2018.
HEIDEGGER, Martin. Ser e tempo. Trad. José Gaos. Petrópolis: Vozes, 2006.
POMPÉIA, João Augusto. Daseinanalítica: perspectivas da clínica psicológica existencial. São Paulo: Summus, 2019.
PERLS, Fritz. Gestalt-terapia: excertos e fundamentos. São Paulo: Cultrix, 1978.
VYGOTSKY, L. S. Pensamento e linguagem. Trad. M. K. Oliveira. 4. ed. São Paulo: Scipione, 1997.
CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA. Nota de Posicionamento nº 5/2025: Inteligência artificial na prática da Psicologia. Brasília: CFP, 2025. Disponível em: https://site.cfp.org.br. Acesso em: 09 set. 2025.
UOL. O uso da inteligência artificial em momentos de sofrimento emocional. São Paulo: UOL, 2025. Disponível em: https://www.uol.com.br. Acesso em: 09 set. 2025.
MORENO, Jacob. Who Shall Survive? Foundations of Sociometry, Group Psychotherapy and Sociodrama. New York: Beacon House, 1972.
PITTY. Chiaroscuro [Letra de música]. Universal Music, 2011.


